APRENDIZ DE FEITICEIRO

O entendimento generalizado classifica como feiticeiro todo homem ou mulher que faz ou promove bruxarias e malefícios contra outras pessoas e animais. E apesar dessa crença ser muito antiga, pois os homens primitivos já acreditavam que alguns dentre eles eram capazes de fazer com que seus poderes maléficos atuassem de forma negativa sobre os seres vivos, ela ainda se mantém forte e ameaçadora em quase todo o mundo, pois não são poucos os países onde podem ser encontrados representantes desse tipo de gente que se dedica à prática de procurar presentear terceiros com os mais variados infortúnios e sortilégios. Alguns deles adquirem melhor consciência dessa sua alegada faculdade e pretendem então utilizá-la para o bem, razão pela qual estão sempre envolvidos em luta contra outros pretensos feiticeiros, tentando anular o mal que estes porventura possam ter causado.

 

Os antigos supunham que os segredos da feitiçaria eram transmitidos por linha familiar, de pai ou de mãe para filho, mas como ninguém nasce sabendo das coisas, o candidato a essa atividade provavelmente deveria passar por um período de aprendizado antes de receber o certificado que o declarava apto a praticar qualquer tipo ou forma de encantamento. Sobre isso, o ilustre poeta, dramaturgo, romancista, filósofo, estadista e cientista alemão Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832), autor de uma gigantesca obra literária onde se incluem principalmente poesias e peças de teatro, escreveu uma fábula contando que um aprendiz de feiticeiro achava que já era o tal, e daí, pretendendo fugir da tarefa doméstica de que era encarregado, aproveitou a ausência do seu mestre e mandou um cabo de vassoura buscar água na fonte.

 

Na mesma hora o pedaço de pau começou a cumprir a ordem e não parou mais, apesar de intimado a fazê-lo, e daí que em pouco tempo a água acumulada já era tanta que a solução encontrada pelo aprendiz foi a de dar uma machadada no atarefado carregador e parti-lo ao meio, para acabar com a lambança. Mas a emenda mostrou-se pior que o soneto, pois como os dois tocos continuaram trazendo baldes e baldes de água, a situação foi se complicando cada vez mais, e ninguém saberá dizer como aquilo poderia ter terminado caso o feiticeiro não tivesse retornado à casa, quebrado o encanto e colocado ponto final no problema. Moral da história: cuidado com o aluno metido a sabichão, porque é impossível prever a confusão que ele pode aprontar.

 

Essa história divertida explica o uso da expressão aprendiz de feiticeiro, perfeitamente aplicável toda vez que nos deparamos com alguém que se propõe a fazer as coisas, mesmo não tendo menor ou melhor experiência a respeito do assunto ou tarefa em questão. Por isso mesmo, é sempre preferível deixá-lo do lado de fora.

 

Sobre Johann Wolfgang von Goethe (ilustração), ele publicou em 1808 a primeira parte de Fausto, seu trabalho mais famoso, que é a dramatização de um relato histórico sobre um verdadeiro Fausto que viveu na Alemanha no final do século XVI. Segundo essa narrativa popular, tal personagem era um mágico com conhecimentos de astrologia e alquimia, e do qual também se dizia ter parte com o demônio, que andava pelo país gabando-se de poder predizer o futuro, explorando dessa forma a credulidade do povo ignorante e supersticioso. Na versão de um crítico de Goethe, a história do verdadeiro Fausto foi contada primeiro por Christopher Marlowe em um drama impresso em Frankfurt, em 1587. Nessa peça, Gregorius Faustus, ou Gregorius Sabellicus Faustus Junior (1480-1510/1), ex-estudante de teologia em Wittenberg, era um homem arrogante e superficial que desejando conhecer todas as coisas na terra e nos céus, recorreu à magia e invocou o Demônio. O Demo lhe apareceu com o nome de Mefistófeles e fez com ele um trato, concordando em ser seu criado por 24 anos, porém, com direito à sua alma. O contrato foi selado com o sangue de Fausto, que daí em diante teve uma vida de maravilhosas aventuras. Mas, ao final do prazo ele foi levado pelo demônio, tendo seu corpo sem vida sido encontrado na calha do esgoto público. Goethe deu ao seu Fausto um final diferente, permitindo que fosse salvo. Na segunda parte, publicada em 1832 com um tema algo diverso, o personagem morre desejando uma sobrevida espiritual. Por essa demonstração de fé, os anjos salvam sua alma e Mefistófeles perde o jogo.