ARRANCA-RABO

Tutmés III, rei que ao longo de 54 anos governou o Egito durante a 18ª Dinastia, cerca de 14 séculos antes de Cristo, reinou a princípio sob a regência da tia, mas transformou-se depois no mais ativo e vitorioso conquistador egípcio, criando um império que alcançou o rio Eufrates e estendeu-se sobre as ilhas de Chipre, de Creta, a costa meridional da Ásia Menor e as ilhas do mar Egeu.

 

Entre seus oficiais estava o fidalgo Amenemheb, guerreiro valoroso que se vangloriava de ter cortado a cauda da montaria do rei de Cadés, ou Cadech, na batalha travada às margens do rio Orontes, perto do Mediterrâneo, em 1471 antes de Cristo, numa região hoje pertencente à Síria, e seu orgulho pela realização de tal façanha era tamanho que ele mandou inscrevê-la em seu epitáfio, recolhido muitos séculos depois pela Académie des Inscriptions. Depois dele foi a vez de Menepta, um outro rei egípcio, filho de Ramsés II, demonstrar seu apreço por troféus inusitados tomados aos inimigos: precisando provar a seus súditos, em 1220 antes de Cristo, que havia derrotado os líbios, ele ordenou que seus soldados trouxessem nas sacolas cerca de 13.000 pênis retirados dos adversários mortos.

 

Voltando a Amenemheb, a razão da sua euforia é perfeitamente explicável: arrancar o rabo do cavalo montado pelo chefe adversário era, naquela época, um feito que merecia ser cantado em prosa e verso, e os guerreiros sabiam disso, tanto que o costume veio atravessando os séculos, até chegar primeiramente a Portugal, e depois ao Brasil. Por aqui, depois de alguns milênios e já sem a dignidade de outrora, o feito dos antigos combatentes do Egito e Ásia Menor acabou se transformando em hábito pouco recomendável praticado por cangaceiros nordestinos, porque sua finalidade era a de humilhar os proprietários de terras atacados pelos bandos chefiados por Jesuíno Brilhante, Adolfo Meia-Noite, Antonio Silvino e Lampião (ilustração) , entre outros, que podiam esquecer de tudo, menos de cortar o rabo de todas as vacas, bois e cavalos pertencentes aos fazendeiros dominados por eles.

 

Mas além desse mau costume de deixar os animais sem cauda, os colonizadores portugueses também nos ensinaram a usar a expressão arranca-rabo, cujo sentido era o de briga, discussão ou conflito envolvendo muita gente, certamente numa alusão disfarçada ao que acontecia nas guerras de antigamente. Isso se mantém até hoje, e assim, quando em algum baile, campo de futebol, clube, ou mesmo em plena rua, estoura uma confusão envolvendo duas ou mais pessoas, costuma-se dizer que o acontecimento foi um autêntico arranca-rabo.

 

Sobre os cangaceiros, eles surgiram no nordeste brasileiro em princípios do século 20, quando grupos de homens armados espalhavam o terror por onde passavam. Eles abraçavam a vida nômade e irregular de malfeitores por motivos diversos, alguns deles impelidos pelo despotismo de homens poderosos. Como no caso de Lampião, o mais conhecido dos cangaceiros, que cometeu o seu primeiro assassinato para vingar a morte do pai, vitima de um crime político. Os homens que se entregavam ao cangaço conseguiram dominar o sertão durante muito tempo porque eram protegidos pelos coronéis que se valiam deles para alcançar seus objetivos pessoais. Mas enquanto se sabia muito a respeito de Lampião, pouco se conhecia sobre os cangaceiros que o acompanhavam, a não ser que seu número era bastante alternado porque outros bandos se juntavam ao dele apenas para a realização de determinados assaltos. Assim, Lampião que começou em 1921 com um pequeno grupo de 6 a 7 homens, chegou a ter sob seu comando, em 1927, um contingente de aproximadamente 123 cangaceiros.. Desses, os mais conhecidos foram Corisco, os irmãos Levino e Ezequiel Ferreira, Volta-Seca, Antônio da Engracia, Mergulhão, Zé Baiano, Ângelo Roque, Mané Moreno, Bem-te-vi, Zé Sereno e Levino Ferreira, entre outros.

 

A entrada de mulheres no bando de Lampião, só aconteceu depois da chegada de Maria Bonita, em 1931. Algumas aderiam ao bando acompanhando seus namorados, enquanto outras ou se juntavam aos cangaceiros por considerá-los heróis românticos, ou então motivadas pelo desejo de se tornarem cangaceiras profissionais. Mas no dia a dia do bando elas eram essencialmente companheiras dos seus homens, e embora aprendessem a atirar como medida de proteção, normalmente ficavam afastadas na hora dos combates.