ARROTAR IMPORTÂNCIA

Até mesmo as crianças pequenas conhecem o significado do verbo arrotar, que é o de se soltar pela boca com ruído que pode alcançar variados tons, o ar do estômago, saturado do cheiro daquilo que se comeu ou bebeu. Mas a palavra também tem outros sentidos que o povo conhece, como o de alardear valentia, dizer desaforos, ou jactar-se de alguma coisa.

 

Quanto ao substantivo importância, que é a qualidade do que tem valor ou estima, ele é usado no Brasil para revelar a atitude de uma pessoa vaidosa, de alguém que assume ares de rico, de influente, de poderoso, e por isso se julga melhor que os outros. De gente desse tipo estamos bem servidos, e certamente foi para satisfazê-los que se criou o bordão “você sabe com quem está falando?”, invocado por eles para intimidar os que ousam contrariá-los.

 

No entanto, como a expressão nos vem de outrora, de outros tempos, alguns estudiosos preferem a versão de que a locução original teria sido formada com o antigo verbo alrotar, praticamente em desuso nos dias de agora, mas que segundo ensinamento do frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo (1741-1822), inserido em dicionário publicado por ele no ano de 1798, traduzia o sentimento de desprezar com soberba e arrogância, de presumir de si com altivez, de jactar-se e engrandecer as suas coisas com orgulho e sem verdade. Nas palavras do religioso, “hoje se toma (o verbo) por insultar, ou escarnecer de alguém; por jactar-se e presumir de si, assoalhando com vangloria as suas obras, virtudes e talentos”. 

 

A obra do frei Viterbo foi apresentada aos portugueses no apagar das luzes do século 18, em dois tomos ilustrados com estampas, e segundo prefácio do próprio autor “intitula-se Elucidario das palavras, termos e phrazes, que em Portugal antigamente se usaram, e que hoje regularmente se ignoram: obra indispensável para entender sem erro os documentos mais raros e preciosos que entre nós se conservam. Publicado em beneficio da litteratura portugueza, e dedicado ao Principe Nosso Senhor”.                

 

Sobre esse trabalho literário merece registro a observação presente no Dicionário Histórico de Portugal, de que o religioso, após a publicação do Elucidário, considerou as críticas de alguns filólogos, reconheceu a conveniência de resumi-lo, e suprimiu, então, as digressões e documentos, limitando‑se ao necessário. Neste sentido, refundiu e abreviou sua obra, preparando uma nova edição que a morte não o deixou publicar, mas que pouco depois, em 1815, tornou-se pública em Coimbra, impressa pela Universidade local com o título de: Diccionario portatil das palavras, termos e phrazes, que em Portugal antigamente se usaram, e que hoje regularmente se ignoram: resumido, correcto e addicionado pelo mesmo autor do Elucidario, a beneficio da litteratura portugueza.

 

Em 1866 fez-se dele, em Lisboa, uma nova edição empreendida pelo editor Fernandes Lopes e dirigida por Inocêncio Francisco da Silva. Saiu com a indicação de segunda edição revista, correta e copiosamente adicionada de novos vocábulos, observações e notas criticas, com um índice remissivo.

 

Voltando ao arroto, seus significados permitem entender por que a locução arrotar importância transmite de imediato a sensação de repúdio, de rejeição, de desconforto, já que o ato é praticado normalmente por quem não está com essa bola toda, qualificação dada aos que não são aquilo que pretendem aparentar ser. Ninguém deveria dar força aos indivíduos presunçosos, falsos, fictícios, dissimulados e enganosos, porque no fundo, no fundo, eles têm a solidez dos castelos de areia que se desmancham até mesmo ao sopro da brisa suave e fresca. E já que não são confiáveis,  não deveriam subsistir, mas infelizmente estão por aí, em número sempre crescente, desfilando sua imponência diante da multidão que nada faz para contê-los. Acontece que nesse mundo há bobo para tudo.