ELEFANTE BRANCO

Devido à sua grande força e docilidade, e ainda à facilidade com que podem ser amestrados, os elefantes têm sido domesticados ao longo do tempo principalmente na Índia, onde são usados em diferentes tipos de trabalho. Os registros históricos comprovam que os homens os aproveitavam desde épocas remotas, e que alguns povos antigos os empregavam como veículo e arma nas batalhas que travavam. Como aconteceu no ano 326 a.C., quando pela primeira vez os gregos tiveram que enfrentar duzentos elefantes, ou com Alexandre Magno (356-323 a.C.), rei da Macedônia, que ao expandir seu império levou com ele número igual desses animais, o mesmo fazendo todos os seus sucessores. Também egípcios e cartagineses recorreram em grande escala aos elefantes de guerra africanos, e até mesmo os romanos tentaram utilizá-lo no século II a.C., mas somente em pequeno número.

 

A história do elefante é marcada pelo respeito com que eram vistos pelos homens do Oriente. Quando no século XVI os portugueses chegaram ao antigo Sião, hoje Tailândia, e depois deles os holandeses, ingleses e franceses, encontraram, na região, costumes e modos diferentes dos que prevaleciam na Europa. E levaram de volta consigo essas informações e as tornaram populares – como Marco Pólo (1254-1324) já o havia feito -, entre elas a de que por lá existiam elefantes brancos, mas em número tão reduzido que poucos podiam afirmar que já os haviam visto. Com respeito a esse fato eles acrescentavam uma revelação curiosa: a de que o rei local, quando insatisfeito com alguém da corte, presenteava-o com um desses animais considerados sagrados, passando a visitar o presenteado em horas incertas a fim de verificar pessoalmente se o bicho estava sendo tratado com a atenção necessária.

 

O homenageado, coitado, que por razões óbvias se vira forçado a aceitar o presente do rei, dali em diante fazia das tripas coração para manter o animal sempre limpo e enfeitado, e o que é pior, procurando satisfazer seu apetite de tamanho e peso equivalentes às quase dez toneladas de carne e ossos que carregava. Em razão disso a expressão “elefante branco” passou a simbolizar inicialmente o presente incômodo e indesejado que alguém recebe de algum engraçadinho (principalmente a partir do século 18, quando a comédia “O Elefante do Rei do Sião”, de Ferdinand Lalou, foi apresentada com grande sucesso ao público europeu), e mais tarde, as coisas enormes e incomuns que ninguém sabe para que servem, como uma obra pública inacabada, por exemplo, ou o viaduto que liga o nada a lugar nenhum.

 

Um dos mais belos contos da literatura oriental conta que a rainha de Videha, na Índia, sonhou certa vez com um elefante branco que tinha seis presas de marfim, e por isso pediu ao rei que as conseguisse para ela. O desejo da rainha parecia irrealizável, mas mesmo assim o rei ofereceu grande recompensa a quem pudesse lhe dizer onde encontrar o tal elefante. Acontece que esse animal vivia realmente nas montanhas do Himalaia e estava se preparando para alcançar a iluminação. Ele havia salvado algum tempo antes a vida de um caçador, mas este homem, cego pela ambição, esqueceu-se da bondade do seu salvador e voltou às montanhas para matá-lo. E foi o que fez, atingindo-o com uma seta envenenada.  Sabendo que seu fim estava próximo o elefante perguntou ao caçador por que ele havia feito aquilo, e o homem lhe respondeu que na verdade, o que ele queria eram as suas seis presas de marfim, pois precisava delas para receber a valiosa recompensa prometida pelo rei. Ao ouvir isso o elefante quebrou suas presas batendo-as contra uma árvore, e as ofereceu ao caçador, dizendo: "Com este presente, acabo de completar o meu treinamento para atingir o estado de um Buda e logo estarei entrando no Nirvana. Quando eu me tornar um Buda, renascerei e virei ajudá-lo a se livrar de suas três setas venenosas:  a da cobiça, a do ódio e a da insensatez”.

 

O elefante branco também serve como tema para uma das obras de Mark Twain (1835 - 1910). Denominado “O Roubo do Elefante Branco”, o livro (sua ilustração de capa é a mesma deste texto) narra a história de um funcionário britânico na Índia, que durante a dominação inglesa recebeu por missão enviar um elefante branco à rainha do Sião, para aliviar tensões políticas em uma questão de demarcação de territórios. Este texto curto e brilhante encerra toda a ironia característica de Samuel Langhorne Clemens, nascido no estado do Missouri, EUA, que após ingressar no jornalismo adotou o nome de Mark Twain, escrevendo obras como “As aventuras de Tom Sawyer” e outros clássicos da literatura.