EMENDA SAIU PIOR QUE O SONETO, A

O poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é considerado um mestre incomparável do soneto pelos historiadores da Literatura, apesar do conjunto de sua obra literária ser avaliada como de caráter desigual. Nascido em Lisboa, ele era de descendência francesa pelo lado materno. Alistou-se na infantaria aos dezesseis anos e depois ingressou na Academia da Marinha, tendo iniciado nessa época seu convívio com os poetas e boêmios lisboetas.

 

Em 1785 partiu para a Índia no posto de guarda-marinha, mas a profunda decepção que lhe causaram os portugueses moradores em Goa inspirou-lhe a criação de inúmeras sátiras aos poderosos da colônia. Esse fato, mais as intrigas causadas por seus versos de amor, resultaram em sua transferência para Damão, de onde fugiu para Macau. Graças à influência de amigos ele conseguiu retornar a Portugal em 1790, ano que também marca o início de sua grande atividade literária.

 

Bocage não se limitava ao modismo literário característico da época em que viveu, e por isso refletiu em seus versos a influência que as idéias revolucionárias francesas exerciam sobre ele. Essa a razão que o fez cantar Napoleão Bonaparte como o novo redentor da natureza, atacar o feroz despotismo e celebrar a Liberdade, mãe do gênio e do prazer, dirigindo freqüentes ironias contra os padres e atacando as próprias bases da concepção religiosa do mundo, como fez na famosa epístola intitulada Pavorosa ilusão da eternidade. Preso, entregue à Inquisição e devolvido à liberdade, o poeta enfrentou grandes polêmicas no último período de sua vida, mas apesar dos contratempos e dos incômodos físicos que o acometeram nessa fase, sempre previu sua glória futura. Como no soneto  famoso em que exclamava: “Zoilos, tremei! Posteridade, és minha!”.


Falando dos médicos em dois epigramas (alusão satírica e severa)  publicados no livro “Obras de Bocage”  (Porto - Lello & Irmão - 1968), diz o poeta:


“Um chapado, um retumbante / Corifeu de medicina / Certa menina adorava, / E adoeceu-lhe a menina / Eis para curá-la o chamam, / Pela alta fama que tem; / Geme o doutor , e responde:/ "Não vou, que lhe quero bem."

“Um velho caiu na cama: / Tinha um filho Esculapino (*), / Que para adivinhações / Campava de ter bom tino. / O pulso paterno apalpa / E receitar depois vai; / Diz-lhe o velho, suspirando: / Repara que sou teu pai”.

 

Conta a tradição que um candidato a escritor apresentou-se certa vez a Bocage pedindo-lhe que examinasse um soneto de sua autoria, e que aproveitasse para marcar com cruzes os erros que porventura encontrasse. O escritor leu o trabalho, mas não colocou nenhuma cruz. E quando perguntado por que não o fizera, explicou ao cidadão que se o tivesse feito, elas seriam tantas que as correções acabariam ficando pior que o próprio soneto.

 

O fato se tornou conhecido de todos, e com isso a expressão “a emenda saiu pior que o soneto” ganhou a força que a faz prevalecer até hoje como forma indicativa de situações em que o conserto de qualquer coisa pode acabar tornando-a pior que a sua condição original.

 

(*) referência a Esculápio, deus da medicina entre os romanos.