O significado normal da palavra “panca“ é “alavanca de madeira”, peça normalmente utilizada para suspender ou forçar alguma coisa. Mas o vocábulo também é empregado na forma de um brasileirismo popular que tem o sentido de atitude, jeito característico, ares de importância ou de presunção, advindo daí o termo “pancudo”, que tem a mesma definição, ou seja, identifica o indivíduo a quem consideramos extremamente presunçoso, pernóstico e metido a importante.
Presunçoso, no caso, é aquele indivíduo transbordante de afetação, jactância e vaidade. Já o pernóstico, por sua vez, trata-se do sujeito pedante, prosa, bem-falante, conversador e usuário habitual de termos difíceis cujo emprego ele desconhece, e por isso mesmo os usa inadequadamente. Enquanto isso, o metido a importante trata-se do cidadão que acredita ser extremamente influente, bastante renomado, otimamente relacionado e assim, assim com os que estão por cima no edifício do poder, razão pela qual dá a si mesmo os ares de pessoa rica e poderosa, embora não seja nada disso.
Como se observa, os três atributos são reconhecidamente negativos, e por isso mesmo a expressão popular “cheio de panca” deveria ser utilizada apenas quando nos referíssemos a alguém que extravasasse antipatia, incompatibilidade ou mal-querença logo em seus primeiros gestos, ou em suas primeiras palavras. Mas com o correr do tempo essa frase-feita aos poucos foi sendo suavizada, passando também a ser adotada nos casos em que alguém aparece bem vestido e arrumado, ou então presenteia os amigos com o sorriso aberto e vitorioso de quem conseguiu um bom resultado em qualquer empreitada. É o caso de se dizer, com ar brincalhão: “O fulano chegou cheio de panca”.
Quando usada no plural essa mesma palavra passa a traduzir apertos, trabalhos, embaraços, dificuldades e estorvos, como no caso de “andar em pancas”, aplicável quando o indivíduo quer dizer que está sobrecarregado de trabalho, ou “estar em pancas”, para alguém manifestar sua intenção de provocar bagunças e desordens. Mas essas formas de expressão praticamente não são mais lembradas no país, tendo praticamente caído em desuso. Entretanto, existem maneiras diferentes de se classificar o indivíduo cheio de panca, e uma delas é chamá-lo de “besta”, sujeito ignorante, grosseiro e brutal, ou então de “besta quadrada”, que quer dizer a mesma coisa, só que ao quadrado. Outra, é a que identifica o indivíduo como sendo alguém “metido a besta”, tipo de comportamento que muita gente boa e entendida considera como sendo uma encenação artística que requer determinados predicados.
Porque para se ser metido a besta não basta esnobar nos gestos e vestimentas, simplesmente, coisa que qualquer pé de chinelo aprende a fazer sem maior dificuldade, é o que afirmava certa cronista, dizendo mais que para esses “artistas” da vida não importa ter ou não ter dinheiro, pois o metido a besta é metido a besta mesmo sem carregar uma nota de real no bolso. E garantia que os que costumam proceder dessa forma têm em comum não só o gosto pelo emprego comedido de palavras estrangeiras, dominando a técnica de encaixá-las na conversação sempre no momento oportuno, especialmente quando os que com ele dialogam entendem unicamente o idioma nacional, mas também fazem uso aleatório da expressão “sic” (que em latim quer dizer “assim”), como em “Besta do Apocalipse (sic), animal simbólico e fantástico (sic) descrito por São João no livro do Apocalipse (sic)”. Indo adiante, a jornalista complementava sua idéia sugerindo que o ser metido a besta não se resume ao uso no falar de línguas estrangeiras ou mortas, porque certas expressões, quando ditas no português, mesmo, são ótimas para isso. Como no caso de “pequeno burguês”, por exemplo. E finalizava seu pensamento advertindo que o afã de alguém em ser metido a besta pode transformá-lo em autêntica besta de pai e mãe, e não há nada pior no mundo do que uma besta metida a besta.
Resumindo: como “cheio de panca” e “metido a besta” são expressões que significam praticamente a mesma coisa, você poderá usá-las tranqüilamente para adular ou pisar no calo de alguém, lembrando-se, porém, que o tom de voz é que vai determinar o sentido da adjetivação. Como no caso da palavra “burro”, que quando dita em voz mansa e acompanhada de um sorriso, é simples brincadeira, mas se falada com inflexão inamistosa, torna-se uma ofensa.