EMINÊNCIA PARDA

Francisco Le Clerc du Tremblay (1577-1638), ou Frei José, foi um capuchinho que também se tornou conhecido como Eminência Parda devido à cor da sua vestimenta de religioso. Como desfrutava de toda a confiança do cardeal Richelieu (1585-1642) - que era tratado como Sua Eminência Vermelha e mantinha nas mãos um formidável poder durante o reinado de Luis XIII (1610-1643), na França -, du Tremblay (ilustração) associou a seu nome a imagem de um conselheiro astuto e intrigante em razão de sua atuação nos bastidores da realeza.

 

No início da vida adulta ele se dedicou à carreira das armas, distinguindo-se pela bravura em batalhas como a do assédio de Amiens pelos espanhóis, em 1597, importante cidade onde está situada a catedral de Notre Dame, a maior da França, e hoje considerada como sendo uma das melhores representantes da arquitetura gótica da Europa. Logo depois ingressou na Ordem dos Capuchinhos (1599), tendo fundado em 1606 a Ordem das Filhas do Calvário e posteriormente um grande número de conventos, além de participar ativamente dos esforços católicos em busca da conversão dos protestantes franceses.

 

Sua relação de amizade estreita com o cardeal Richelieu começou em 1616, e a partir daí ele se tornou seu conselheiro e confidente, chegando a ponto de influenciá-lo na tomada de decisões importantes, principalmente no período entre 1632 e 1635. A força de sua presença persuasiva, mas oculta aos olhos de todos, marcou algumas passagens relevantes da história francesa, como a hostilidade contra as Casas da Espanha e da Áustria, a Guerra dos Trinta Anos e a libertação de Portugal do jugo espanhol.

 

Além disso, o frei José também esteve junto às tropas que durante quatorze meses assediaram a cidade de La Rochelle, considerada a capital dos huguenotes (apelido dado pelos católicos franceses aos protestantes, especialmente os calvinistas), obrigando-os a assinar um tratado de paz que terminou com a existência desse grupo religioso como força política de expressão. Após a morte de Tremblay, a expressão “eminência parda” continuou sendo usada com a mesma finalidade que conserva na atualidade, ou seja, a de designar aqueles que permanecem na sombra, sem aparecer em demasia, mas que através de maquinações e conchavos conseguem força suficiente para influenciar de forma direta as decisões dos que estão no alto da pirâmide do poder.

 

A biografia de Armand Jean du Plessis, nome verdadeiro do cardeal Richelieu, disponível no site Virtual Books Online, revela que ele nasceu em 1585, de uma família pobre da pequena nobreza, sendo consagrado bispo em 1607, com a idade de 22 anos. Freqüentando o palácio real, em Paris, conquistou a amizade do rei, mas entendendo que naquele momento sua presença na corte não tinha maior sentido, preferiu assumir o bispado de Luçon, um dos mais pobres da França, tornando-o próspero graças à proteção do soberano. Foi nesse período que “travou conhecimento com François Le Clerc du Tremblay, que passou para a história sob o simples nome de “padre José”. Foi esse o início de uma amizade que se tornaria preciosa para Richelieu, pois o padre José, que seria mais tarde chamado a “Eminência Parda”, tornou-se indispensável a Richelieu, durante os 18 anos de poder do futuro cardeal. Por outro lado, o padre José, tendo compreendido a inteligência do jovem bispo e desejando permanecer um simples capuchinho, transferiu para ele ambições e desígnios”.