ENTRAR COM O PÉ DIREITO

Superstição é uma palavra geralmente empregada em sentido bastante vag o, porque está ligada ao sentimento religioso das pessoas. Assim, por exemplo, as manifestações dos cultos afro-brasileiros são consideradas superstição pelas autoridades eclesiásticas, mas constituem prática regular e corrente de uma parte da população. Essa aceitação pela crendice, preconceito, opinião ou presságio tirados dos acidentes ou circunstâncias fortuitas que fazem parte do dia-a-dia de qualquer pessoa, já foi bem mais intensa em tempos passados, e dela temos conhecimento através dos relatos que conhecemos sobre deuses e heróis mitológicos.

 

Acreditava-se, por exemplo, no agouro, bom ou mau, que simbolizava a profecia baseada na interpretação de algum fenômeno natural, ou de algum acontecimento particular. Na antiguidade romana, a denominação de agouro se aplicava às respostas dadas por qualquer membro de uma corporação sacerdotal de adivinhos, os quais, por isso mesmo, também tinham o nome de áugures, arúspices, áuspices. A função do áugure romano consistia em sondar a vontade dos deuses a fim de se prever o futuro de qualquer empreendimento.já em curso, ou ainda a ser executado. Eles costumavam basear suas adivinhações em sinais eventuais que se conjugassem com fenômenos da natureza, e para isso observavam o trovão e o raio; analisavam o canto, o pio e o vôo dos pássaros; tomavam em consideração as modificações dos hábitos alimentares das aves domésticas, como, por exemplo, a galinha; meditavam sobre a conduta de quadrúpedes e répteis, davam atenção a certos acidentes, como o derramamento de sal, o aparecimento de um mendigo, o tropeçar de um cavalo, ou a morte de uma criança.

 

As adivinhações baseadas em observações relacionadas com os pássaros tinham o nome de auspícios; as baseadas em quaisquer outras reflexões conservavam invariavelmente a denominação de agouros. Ao tempo dos conquistadores romanos, nenhuma iniciativa, principalmente de ordem militar, se levava a termo sem a consulta a esses sacerdotes. Com o correr do tempo, entretanto, eles passaram a servir aos donos do poder, transformando a própria função em instrumento de ambição e de vingança, razão pela qual sua instituição acabou desaparecendo em Roma. Data dessa época o costume que se usava na Roma antiga, dos convidados serem avisados de que deveriam entrar nos salões com o pé direito, a fim de evitar o agouro. 


 A crença de que o lado direito é bom, ao contrário do que acontece com o esquerdo, vem também de longa data. No Egito antigo, Set, deus das trevas, da noite e do mal, era chamado de “o olho esquerdo do Sol”, sendo apresentado na arte egípcia com a cabeça de um animal esquisito, de focinho pontudo e orelhas altas e estranhas. O Templo de Set, que reúne seus seguidores atuais, embora seja denominado de Satanismo pelos católicos, é geralmente conhecido como o Caminho da Mão Esquerda. No budismo, Buda descreve que no caminho para o Nirvana (o estado de purificação e salvação) são encontradas duas opções: uma representada pelo caminho da mão esquerda, ou o jeito errado de se viver, que as pessoas deveriam evitar dando preferência ao caminho da mão direita, este sim, o caminho digno para a purificação da alma. Na tradição judaica, o príncipe dos demônios, que era chefe de Satanás, se chamava Samuel, ou Se’mol, uma palavra hebraica cujo significado é "o lado esquerdo". A partir desta lenda, os esquimós cultivaram a crença de que todos os canhotos são poderosos feiticeiros, enquanto em Marrocos, os canhotos foram considerados pessoas malvadas e demônios!

 

A recomendação romana de se “entrar com o pé direito” ultrapassou as fronteiras do império, ganhou o mundo e resistiu à passagem do tempo, tornando-se prenúncio de felicidade, ventura, êxito, boa sorte. Deixando para o esquerdo a má fama que há tantos e tantos anos os poetas atribuem ao adjetivo, como sinistro e de mau agouro. 

 

Entre   as personalidades brasileiras que confirmaram em público os bons resultados que o cumprimento da advertência poderá proporcionar aos que se dispuserem a respeitá-la, está o nosso ilustre Rui Barbosa, que em discurso feito às vésperas da posse do marechal Hermes da Fonseca (1855-1923), disse a seguinte frase:  "Que o novo presidente entre com o pé direito".