ESPERTO COMO UMA RAPOSA

Na fábula “A Raposa e o Corvo”, conta Esopo que a raposa caminhava pela floresta quando percebeu que no galho da árvore mais próxima um corvo segurava um queijo no bico, pronto para comê-lo. Na mesma hora ela teve seu apetite aguçado e por isso começou a pensar num jeito de conseguir o petisco para si. Não foi preciso muito tempo para lhe surgir uma idéia, e ela então falou como se estivesse admirada:

 

- Como você é bonito, meu amigo corvo. Que penas lindas são essas suas, e que cores mais vistosas elas têm. Mas será que a sua voz é tão agradável e harmoniosa quanto sua aparência? Se for, certamente você deverá ser o rei dos passarinhos!

 

O corvo ficou envaidecido e se encheu de prosa com aquelas palavras, e para provar ao bajulador que realmente sabia cantar, abriu o bico e... deixou o queijo cair diretamente na boca da raposa. Dizem que foi assim que ela ganhou a fama de esperta que a acompanha até hoje, mas a verdade é que esses animais realmente fazem jus à fama que têm, ajudadas que são pela visão e audição bastante desenvolvidas, e principalmente porque o olfato, seu sentido primordial, lhe dá uma extraordinária vantagem não só sobre os outros bichos, mas também sobre o homem. Seu focinho, como o de todos os caninos, é molhado, frio, e tem um formato que facilita a circulação do ar por essa área sensorial, permitindo que as partículas de odor dissolvam-se em suas secreções nasais, estimulando a produção de mais secreções.

 

O sentido de olfato das raposas é bem mais desenvolvido que o dos homens. Assim, quando o vento lhes traz o cheiro de uma presa que se encontra a 365 metros de distância, ou mais, elas apenas levantam o focinho e se deixam guiar pelo faro até o local onde está a vítima. Essa capacidade de perceber através do ar a movimentação de um ser vivo a distâncias relativamente consideráveis, aliada à velocidade que conseguem desenvolver até mesmo em terrenos inóspitos, permite que as raposas se antecipem a caçadores e predadores que andam à sua procura, escapulindo deles com relativa facilidade e robustecendo com isso sua fama de espertas e inteligentes.

 

Carnívoro selvagem encontrado em maior abundância no mundo, a raposa vive no máximo nove anos. Ela é um animal de hábitos crepusculares e noturnos, alimentando-se quase que exclusivamente de carne. Na sua dieta estão incluídos pequenos mamíferos como coelhos e lebres, aos quais, eventualmente, podem ser acrescentados outros tipos de comida, tais como aves, peixes, insetos, e até mesmo frutos silvestres e cultivados. Os desperdícios humanos são também procurados em épocas de carência, razão pela qual elas se aproximam de lixeiras próximas aos centros urbanos. A raposa consome diariamente cerca de quinhentos gramas de alimento, e o que não come no próprio dia costuma guardar em até vinte esconderijos diferentes, conseguindo lembrar-se da localização de cada um deles. Nas zonas rurais ela ocasionalmente assalta galinheiros, e como tem o hábito de matar em excesso, isso lhe acarreta uma fama ruim entre os moradores desses lugares. Vivendo em grupos formados por várias fêmeas e um macho adulto, a raposa. utiliza tocas escavadas e protegidas pela vegetação, construídas por ela própria ou aproveitando as de texugos ou coelhos.  

 

Foi a partir da pequena fábula onde Esopo conta como a raposa conseguiu comer o queijo do corvo, que nasceu a expressão popular “esperto como uma raposa”, utilizada para identificar não só os indivíduos que dificilmente são apanhados em situações difíceis e complicadas, mas também os idealizadores de projetos quase sempre bem sucedidos.