LEVADO DA BRECA

Usava-se antigamente, em Portugal e no Brasil, a expressão popular “levado da carepa”, entendida por alguns autores como sendo indicadora de alguém que fosse insinuante, capaz, e possuidor de conhecimentos adquiridos através da vivência nos meandros sociais. Na verdade, a palavra está incluída em nossos dicionários com significados diferentes, e no que diz respeito ao ser humano, é a mesma coisa que caspa, aquela esfoliação da pele na forma de escamas de pequeno tamanho, que muitas pessoas costumam carregar no alto da cabeça.  Mas essa frase-feita caiu em desuso, foi esquecida pela população e acabou sendo substituída por “levado da breca”, que identifica alguém travesso, turbulento, endiabrado.

 

Fisiologicamente, breca é a cãibra, uma contração involuntária e dolorosa de determinados músculos, sobretudo da barriga da perna, que normalmente se vê acontecer com atletas que fazem muito esforço. Mas ela também é comum em alguns outros profissionais, como os contadores, os músicos e os telegrafistas, o que é atribuído principalmente ao cansaço proveniente do exercício da atividade, ou à posição inadequada em que a mesma é executada.

 

No sentido figurado, ela, a breca, é a traquinice, a travessura, a maldade, e é nessa condição que se junta ao particípio passado do verbo levar - levado - para formar a expressão “levado da breca”, que se traduz como indivíduo traquinas, inquieto, ladino, insuportável, mau. Sua origem é portuguesa, com certeza, já que em terras lusitanas o vocábulo significa furor, ira, sanha, dando origem a uma outra locução - com a breca! -, uma espécie de imprecação que pode ser lida como “com os diabos!”, exprimindo espanto, raiva ou zanga. 

 

A partir daí foram surgindo outras locuções relacionadas com a palavra breca, algumas delas incluídas no Dicionário Prático da Língua Portuguesa, autoria de A. Martins Barata, e editado pela Livraria Apostolado da Imprensa, Braga, Portugal, tais como as seguintes:

 

- coisas da breca:  coisas espantosas, incríveis, extraordinárias.

- fazer coisas da breca: fazer diabruras, travessuras; coisas raras.

- que o leve a breca: que desapareça para sempre!

- ir-se com a breca: sumir-se; perder-se.

 

Com o passar do tempo essa expressão perdeu sua mordacidade, suavizou-se, e passou a ser empregada quase que exclusivamente em relação a crianças e jovens para destacar sua turbulência, sua agitação e seu desassossego sem maldade, porque essas são características naturais em seus poucos anos de vida. Como bem revela a poetisa Augusta Schimidt em seu poema “Menino sapeca, levado da breca”:

 

Menino sapeca / Levado da breca / Feliz e contente / Sorriso nos lábios / É um amigão. / É amigo de todos e de tudo / Das folhas, / Das flores, / Dos animais, / Dos rios e correntezas, / Das matas e coqueirais, / Das pessoas que vivem nas vilas... / E o que se pode querer mais?

 

Menino sapeca não pára / Bolinhas de gude na mão / Canequinha com bolhas de sabão, / Pipa no ar / Bola no pé / É tudo que o menino quer. / Na escola nunca se enrola, / Faz tudo que a professora quer / Tem boas notas / Sabe ler, escrever, / Sabe até cantar em inglês !

 

Menino sapeca / É menino querido / E quando crescer / Vai ser muito sabido. / Meu querido menino sapeca / Quero que você saiba / Que lhe tenho no coração / Nunca perca a esperança na vida / Lute sempre! / Vá em frente! / E seja campeão.

 

Apesar disso, vez ou outra os adultos merecem ser lembrados pela expressão, como aconteceu há alguns anos com Abelardo Barbosa, o inesquecível Chacrinha que comandou durante muito tempo, com sucesso extraordinário, alguns badalados programas de rádio e televisão. Entre as muitas músicas que a ele se referiam, uma dizia:

 

Abelardo Barbosa / que esta com tudo e não está prosa / menino levado da breca / o Chacrinha faz gracinha / na buzina e discoteca / Ó Terezinha, Ó Terezinha / é um barato o Cassino do Chacrinha.