MAL E PORCAMENTE

A expressão original seria “mal e parcamente", unindo o substantivo mal, com sentido de sofrimento físico e moral (como doença, desgraça ou infortúnio), à ação das deusas Parcas, que presidiam a vida humana (o termo de composição “mente” indicando modo, intenção, fim). Sendo assim, o sentido da frase seria o de precisar que se as coisas não iam bem, a responsabilidade por isso deveria ser atribuída à ação das deusas que cuidavam da sorte dos homens. Elas  eram  três  fiandeiras - Cloto, Láquesis e Átropos -, filhas da Noite e de Érebo, ou de Júpiter e de Têmis, ou ainda da Necessidade e do Destino, e tão velhas quanto a Terra e o Céu. A primeira – Cloto, cujo nome significa “fiar” – produzia o fio dos destinos humanos; a segunda – Láquesis, ou “ver a sorte, examinar a sorte” – colocava o fio no fuso; e a terceira – Átropos, que quer dizer “a inflexível” – cortava sem dó nem piedade o fio que media a vida de cada mortal.

 

As deusas habitavam um lugar nas regiões olímpicas, de onde dirigiam não apenas a sorte dos mortais, mas também o movimento das esferas celestes e a harmonia do mundo. Merecedoras de grandes honrarias por parte dos gregos e dos romanos, as fiandeiras divinas também determinavam o nascimento dos homens, além de conduzir e fazer sair do Tártaro, abismo situado no fundo do Inferno, os heróis que se atreviam a penetrar naquelas paragens terríveis.

 

Mas o tempo foi modificando o sentido da expressão. Primeiramente, o “mal” perdeu o seu significado original e passou a representar o defeituoso, o incorreto, o imperfeito. Em seguida, o “parcamente” desvinculou-se das deusas Parcas e adquiriu a conotação de pouca coisa, de algo reduzido e moderado, mas em razão de o termo “parco” ser pouco usado em nosso linguajar diário, mais o fato de que os apressados pronunciam “porcamente” com mais facilidade do que “parcamente”, a frase-feita se transformou em “mal e porcamente”, na intenção de indicar coisas feitas de qualquer jeito. Alguns estudiosos do idioma garantem que o porco entrou de gaiato nessa história, e com justa razão, porque porcaria é sinônimo de sujeira e imundície, enquanto o suíno, na verdade, talvez seja melhor apreciador de limpeza que muita gente boa que anda por aí. Por exemplo: sempre que lhe é possível, ele procura um cantinho afastado da baia para se desfazer daquilo que o seu aparelho digestivo não tem mais como aproveitar, ao invés de ficar andando e fazendo, como muita gente desinformada pode pensar.      

 

Na literatura, muitos autores buscaram nas deusas a inspiração para seus escritos, como no caso de Raquel Naveira e seu poema intitulado As Parcas:

 

“Somos três as Parcas na barca do destino. Somos três as Fiandeiras, laçadeiras da existência. Somos três as mulheres desta terra brasileira. Sou Cloto, a que fia, a jovem índia, a que lamenta a opressão, o genocídio, a vida transformada em morte no fim do dia. Sou Láquesis, a que tira a sorte, a que determina o comprimento do fio munida de um fuso e de um mapa-múndi. Localizo almas. Vim da África, minha pele é negra, cruzo mares em navios negreiros escuros e sombrios como a escravidão. Sou Átropos, nada abranda meu coração. Corto o fio dos novelos na hora em que Deus manda. Sou alva como lírio, velha como a História, minha única glória, a de agora, a de sempre, a de nunca mais, é cavar a cova dos mortais. Somos três as Parcas que ligam este mundo ao outro mundo: o inferno ao céu, e o céu à Terra; o homem a si e ao seu princípio.  Somos três as Parcas neste labirinto, seguindo passo a passo o fio que conduz ao infinito. Somos três as Parcas nestes bastidores, nestes teares, criando formas que se rompem, frutos de nossas entranhas, de nossa substância, de nossas teias de aranhas. Somos três as Parcas, duras e impiedosas, filhas da Necessidade, lei que rege as mudanças, que planta e ceifa as contínuas esperanças. Somos três as Parcas, fixando símbolos, plantando sementes nos campos das mentes que lavramos. Somos três as Parcas, somos três as Moiras: Índia, Negra, Ibérica. Marcas deste continente que se fez América”.