Bedelho é a tranca, taramela ou ferrolho - pequena peça de madeira que gira em torno de um eixo metálico, geralmente um prego - cravado em cancela, porta ou janela, para fechá-los atravessando os batentes. Ou também um pequeno trunfo em jogo de cartas; ou ainda o rapazinho novo a quem muitos preferem chamar de fedelho. A palavra deu origem ao verbo bedelhar, cujo significado é o de meter o bedelho, intrometer-se, conversar com familiaridade, entrar em assuntos ou conversação sem ser chamado, imiscuir-se com curiosidade em assuntos alheios.
Embora tenha origem discutível, a expressão meter o bedelho traduz a idéia da inconveniência, da indiscrição, da curiosidade insatisfeita, que tanto pode ser observada nos recintos modestos da classe média para baixo, como nos salões sofisticados da alta sociedade. Afinal de contas, não há quem desconheça a existência de gente que se compraz em bisbilhotar a conversa dos outros, dando palpite ou fazendo comentário sobre assuntos que não lhe dizem respeito. Mas além dessa explicação, uma outra sugere que em uma mesa de jogo, quando o jogador que tem em mãos um trunfo pequeno decide participar de jogadas que não são para ele - já que os outros têm trunfos bem maiores -, estaria também metendo o bedelho, ou seja, pretendendo entrar onde não é chamado.
Nesses casos ocorre o blefe, que é o ato de blefar, iludir no jogo simulando ter boas cartas, fingir ou enganar por falsas aparências. Sobre a prática desse tipo de engodo os especialistas asseguram que boa parte das pessoas pensa que o ideal é permanecer impassível, mas um bom jogador precisa avaliar corretamente o que o seu oponente está sentindo. A primeira dica é prestar atenção nos gestos dele: quando alguém está com cartas fracas, geralmente fica mais tensa e agressiva. Como o erro maior que se pode cometer é blefar com um jogo mediano nas mãos, vale o conselho: blefe apenas em caso de emergência, ou seja, quando estiver com um jogo péssimo, pois somente nesse caso é que se deve correr o risco. Por outro lado, os textos sobre a história do pôquer garantem que as chances de um jogador conseguir uma boa seqüência de cartas é pequena, o que faz da arte de blefar o principal recurso para se ganhar uma rodada. Daí que experiência e controle das emoções são qualidades indispensáveis para um bom jogador de pôquer, já que é preciso esconder o que se tem em mãos para que as apostas aumentem e o ganho seja maior. Resumindo, é importante saber o momento de blefar para ser bem sucedido neste jogo.
Sobre a curiosidade que justifica em parte a expressão “meter o bedelho”, o biólogo Fernando Reinach, professor da USP, esclarece em artigo publicado no Aliás Debate, caderno do jornal O Estado de São Paulo, que a ciência responde ao desejo natural do homem ou mulher em saber das coisas explicando, por exemplo, como era o ovo de um dinossauro, se ele sentava ou não em cima do ovo, e o que fazia; ou então orientando sobre o que há do outro lado da lua, como funciona o coração, o rim, e tantas outras indagações sobre tantos outros temas que fascinam as pessoas. O problema, afirma o biólogo, é que hoje os estudos da ciência são cada vez mais difíceis de serem entendidos pelos cidadãos de menor nível cultural, e isso cria um distanciamento complicado e um enorme desafio.
A definição comum do curioso é de que se trata de alguém com desejo ardente de ver, saber, ou desvendar algo às vezes nem tão misterioso ou complicado. Mas quando esse desejo - que até certo ponto é natural e compreensível - avança além do limite aceitável, surge o indiscreto, que não é outro senão o indivíduo linguarudo, falador, bisbilhoteiro, inconveniente, aquele ou aquela que procura saber os segredos alheios ou costuma se intrometer sem constrangimento na conversa dos outros. O jornalista José Antônio dos Santos, de Uberaba, MG, é autor de interessante matéria sobre indiscrição, publicada no Jornal de Uberaba em 06/12/2005:
“Bons tempos aqueles em que a indiscrição de bisbilhotar a vida alheia não ia além de uma espiada pelo buraco da fechadura ou através das lentes de lunetas estrategicamente colocadas em janelas de apartamentos. Hoje, a nossa vida está sendo monitorada via satélite e patrulhada via minicâmeras espalhadas nos mais variados cantos da cidade, seja nos shoppings centers, nas lojas, nos metrôs, nos bares e por aí vai. As câmeras de vigilância em residências e ruas de grandes centros já são uma impertinente rotina. Ajuda? Resolve? Muitas vezes, sim. Muitas vezes, não. Babás malvadas têm sido flagradas maltratando bebês. Assaltantes são identificados em ação. Pobres políticos e corruptos de toda espécie são pegos em vergonhosas negociatas. A câmera indiscreta tem suas vantagens. O que seriam dos programas de televisão que as utilizam para nos deleitar com os “micos” de situações engraçadas ou situações “armadas” como do teste de fidelidade ou “BBB”? Tirando tudo isso, a vida de cada um de nós tem sido um tormento. Não sabemos se podemos nos comportar normalmente ou se teremos que exercer a autocensura diante do avisozinho: “Sorria! Você está sendo filmado!” A pergunta que cabe no momento é: tanta indiscrição, tal patrulhamento de nossas ações, é um mal necessário? Na lógica do capitalismo, o custo-benefício, vale a pena? Do inocente flagrante de arrancar uma caquinha do nariz, passando por uma coçada nas partes pudendas até a um ato criminoso de apontar uma arma para assaltar alguém, ou os maus tratos a algum civil em uma abordagem policial, tanta vigilância melhorou a conduta do ser humano deste o advento destes sofisticados equipamentos? O aparelho celular, mero encurtador de distância entre pessoas hoje é uma espécie de equipamento para espionagem: grava sons e imagens. Socorro! Que proliferem os anúncios : Sorria! Você não está sendo filmado!!! Que bom seria sentir que no máximo estamos sendo olhados por discretos pares de olhos. Viva a liberdade de ir e vir... Em paz”.
Esse é um dos casos em que a expressão “meter o bedelho” tem aplicação corrente, embora ninguém consiga explicar de que forma ela conseguiu criar o seu espaço no linguajar da população distante de academias e grêmios literários.