PLANTAR BANANEIRA

A expressão plantar bananeira dá nome ao ato em que alguém fica de cabeça para baixo, sustentando o corpo nos braços esticados e mãos apoiadas no chão, mantendo as pernas também esticadas no sentido vertical (conforme a ilustração ao lado) equilibrando-se dessa forma por um determinado período. A prática desse exercício físico que inverte a postura normal do homem tem relação com um dos golpes de capoeira, aplicado quando o lutador, firmando-se nas mãos plantadas no solo, coloca as pernas para o alto e procura atingir com os pés o rosto ou o peito do adversário.


Quanto ao nome dado a essa atitude corporal, o professor de Língua Portuguesa Deonísio da Silva, autor do livro “De Onde Vêm as Palavras”, esclarece que ela é uma metáfora inspirada no formato da árvore que dá a fruta. Nas palavras do escritor Márcio da Silva Cotrim, natural do Rio de Janeiro ([email protected]):

 

“A semente da banana é o próprio pé que deve ser plantado de cabeça para baixo, daí porque se usa a expressão plantar bananeira quando alguém se mostra nessa singular condição, também conhecida por ficar de ponta cabeça. Quem planta bananeira, de pernas para cima e cabeça rente ao solo, cria a imagem de uma bananeira com cacho, banana, umbigo e folhas representadas pelas pernas, tudo muito exposto e salientando o aspecto ridículo de uma posição oposta àquela habitual do ser humano, bípede ereto. Diz a crendice popular que quem enfia uma faca no tronco da bananeira, em noite de São João, vai ver a letra inicial do futuro noivo ou noiva escrito na lâmina da faca. Outra curiosa superstição: quando a bananeira vai dar cacho, geme como uma mulher com dores de parto, quem sabe? Não custa conferir. A bananeira é considerada a árvore dos sábios. Isso deve ter algum fundo de verdade, pois seu nome científico é musa sapientum, musa da sabedoria. Vivendo e aprendendo”.

 

A bananeira é uma planta de caule subterrâneo, que se desenvolve em sentido horizontal, e do qual surgem as folhas que crescem para fora da terra, formando o falso tronco. Apenas uma vez na sua vida, cada caule falso dá um ramo de flores, que aos poucos vai se transformando num cacho de bananas, formado por pencas que, ao todo, podem chegar a somar até duzentas bananas. Depois de ter produzido o cacho, outro pé começa a crescer do rizoma subterrâneo e dele nascerá o próximo cacho. Por sua vez, a banana é a fruta mais popular do Brasil, e embora não seja nativa do continente americano (é originária do sul da Ásia e da Indonésia), adaptou-se muito bem ao nosso solo e clima, transformando-se num dos principais produtos de exportação do país. Seu valor nutritivo é alto. Muito rica em açúcar e sais minerais, principalmente cálcio, fósforo e ferro, e vitaminas A, B1, B2 e C, é fácil de digerir, podendo ser dada às crianças a partir dos 6 meses de idade. Como quase não tem gordura, é indicada nas dietas baixas em colesterol. Pode ser consumida ao natural, seja como sobremesa ou usada nos mais variados tipos de prato: salada de frutas, bolos, tortas, vitaminas, sorvetes, mingaus, recheios de aves e carnes, farofas, musses e sanduíches.

 

A bananeira empresta seu nome a esse tipo de exercício físico - plantar bananeira -, cuja prática, como tudo na vida, pode gerar resultados negativos ou positivos. No primeiro caso inclui-se o acidente divulgado por Folha Online em 18/01/2005. Através dessa informação ficou-se sabendo que uma norte-americana tinha morrido na noite anterior após cair do segundo andar de um hotel, quando tentava "plantar bananeira" na barra de proteção da varanda do quarto que ocupava. A mulher, entretanto, desequilibrou-se e caiu no pátio do hotel. A notícia foi divulgada pela polícia do Condado de Lee, na Carolina do Sul. Pouco antes da queda ela havia tentado chamar a atenção de uma amiga dizendo-lhe: "Olha o que eu consigo fazer". Não há indicações de envolvimento de outra pessoa nesse trágico acidente.  

 

A outra informação, essa positiva, orientadora e bem-humorada, é dada pela jornalista Lílian Liang, editora de sua publicação, (www.20/20brasil.com.br), através do seguinte relato : “Vou revelar um segredo: volta e meia fico de ponta cabeça, apoiada em uma das paredes coloridas do meu apartamento. “Plantar bananeira” é um hábito que teve início quando aprendi, depois de muitos tombos, a me sustentar apenas com minhas mãos. A diversão do exercício, além de ver quem conseguia se manter naquela posição por mais tempo, era poder enxergar tudo ao contrário! As bananeiras nas salas de aula do Colégio Visconde de Porto Seguro, um colégio alemão muito rígido na capital paulista, me renderam várias broncas de professores, que ficavam horrorizados com as marcas de sapatos nas paredes brancas. Eu devia ter uns 11 anos na época. Hoje já passei dos 30, mas mantenho o costume por uma razão simples: enxergar as coisas de ponta cabeça é um exercício e tanto para colocar algumas situações em perspectiva. Nem sempre resolve o problema, mas ajuda a me lembrar que existem outras formas de enxergar a mesma realidade”.

 

“Essa edição da 20/20 Brasil traz algumas matérias que nos propõem exatamente esse exercício. A repórter Angela Ferreira, por exemplo, passou um dia inteiro vendada para apenas começar a entender a realidade de um deficiente visual. Sua matéria “Um dia no escuro” conta os perrengues por que passou e as lições que tirou para a vida com visão. O colaborador Ayrton Mugnaini Jr. conta a história da terceira dimensão e mostra como recursos simples, como óculos coloridos, conseguem o efeito de dar profundidade a telas e livros, transformando a visão de mono em estéreo. Já a repórter da casa Marina Almeida traz em sua matéria sobre catarata os resultados da mudança de perspectiva: quando se enxerga a cirurgia como uma forma de melhorar a qualidade de vida ao invés de apenas um procedimento médico, a operação assume um outro sentido. Mudar de perspectiva é bom até para nos certificarmos de que a posição em que estamos ou que assumimos é a melhor ou a mais correta. Plantar bananeiras ainda me ajuda nesse processo. Parei com essa história em sala de aula depois que um professor nos pegou em flagrante e nos obrigou, no dia seguinte, a trazer esponja e detergente para limpar as paredes. Depois de grande, retomei o hábito em casa, mas sempre descalça. Algumas lições a gente nunca esquece. Boa leitura!”.