Esporas são instrumentos de metal feitos ordinariamente na forma de um arco que se adapta ao salto do sapato ou bota, e do qual sai uma haste terminada em roseta ponteada móvel ou de ponta aguda, com a qual o cavaleiro incita o cavalo a andar. Seu uso parece ser muito antigo e supõe-se que foram usadas mesmo antes dos estribos. Existem numerosos tipos desse artefato, mas o mais usado na atualidade constitui uma evolução do simples e curto ferrão, que parece ter sido o modelo primitivo. Na Idade Média, o ato solene de se armar um cavaleiro incluía a colocação de esporas de cor dourada, o que era feito pela dama escolhida para madrinha, ficando os escudeiros com as prateadas. As de guerra eram geralmente de ferro estanhado, mas a partir do século 13, tanto os cavaleiros, como também os burgueses ricos passaram a usar esse pequeno e reluzente acessório de montaria.
Quanto às mulas, produto resultante do cruzamento de burro com égua, são animais inteligentes, com boa audição e sentido do tato bem desenvolvido, principalmente nos cascos, tanto que se mostram imbatíveis em terrenos pedregosos, acidentados ou íngremes. Nas situações de perigo reagem com prudência, e não afoitamente como os eqüinos, além de marcharem pelos caminhos por onde seus donos os levam com regularidade e resistência impressionantes. Por todas essas qualidades são enaltecidas pelos homens do campo, como acontece nas canções sertanejas “Mula Preta” e “Besta Ruana”, cujas letras garantem que elas não são de vender, nem de emprestar. O costume de dar um nó na cauda dos muares vem do século 19, quando eles eram largamente utilizados como principal meio de transporte nas longas viagens feitas na época, porque com o rabo amarrado o animal não sujava o cavaleiro após passar em terrenos alagadiços e com lama.
Mas as mulas são teimosas, como acontece com todos os muares, daí a razão do ditado “teimoso como um burro”. Além do mais, são de doma difícil, e é por essa razão que o uso da espora se torna indispensável quando elas são usadas como montaria. Essas características de teimosia e indocilidade deram à palavra “mula” um outro sentido, além do nominativo, que é o de indicar pessoas ruins, manhosas, ardilosas, dissimuladas ou reservadas, o que por si só explica a existência da expressão “picar a mula” como sendo a forma de se demonstrar que para fazer o animal andar, o cavaleiro que o monta precisa estimulá-lo com a espora que traz no calcanhar. Com o tempo essa expressão passou a abranger todas as situações que signifiquem andar, caminhar ou ir embora com pressa, mesmo a mula não estando presente.
Sobre a teimosia das mulas o explorador inglês Richard Francis Burton (1821-1890), que veio ao Brasil como cônsul da Grã-Bretanha na cidade de Santos, São Paulo, e viajou o país em busca de riquezas que pudessem ser aproveitadas pelo Velho Mundo, fornece um interessante depoimento em seu livro “Viagem de Canoa de Sabará ao Oceano Atlântico”, resultante dos quatro meses de viagem de Burton pelos rios das Velhas - de Sabará até Pirapora - e São Francisco: “Não há viajante que não se queixe da teimosia e rabugice das mulas; não há viajante que não alugue mulas, um mal necessário, pois os cavalos não agüentam fazer longas viagens, nesta parte do Brasil. A besta deve ser compreendida estudando-se o mulato e o eunuco; como esses dois monstros amáveis, ela parece encarar toda a criação com um mesmo e indistinto ódio. A mula não toma afeição ao dono, por melhor que ele a trate; o cavaleiro jamais pode confiar nela, e, de todos os animais, é o mais afetado pelo medo. Seus truques são inúmeros, e a mula parece ter consciência de que sua traição pode sempre levar a melhor em uma luta; os velhos, portanto, preferem os cavalos às mulas. É um engano acreditar-se na resistência desses animais; aqui, pelo menos, cheguei à conclusão de que o sol cedo os cansa e que eles exigem muito alimento, muita água e muito descanso. Durante minhas viagens pelo Brasil, uma mula caiu comigo ao atravessar uma ponte, a despeito da tão proclamada sagacidade muar; outra caiu de lado, prancheou-se, como dizem os brasileiros; uma terceira, aliás, um macho muito perverso, deu um tal pulo, quando me encontrava tranqüilo depois e descuidadamente sentado na sela, que uma hora depois eu ainda estava tonto. E, em resumo, não andei 100 milhas sem que minha cavalgadura beijasse o chão, uma, duas, três vezes. Em um ponto, contudo, aquele quadrúpede ultrapassa o bípede. Olha para o que é mais importante, e acompanha os passos de um irmão bastardo, enquanto o bípede aprende - e, o que é mais curioso, o pai de família lhe ensina tal lição - a fazer o contrário”.