Francesco Bracciollini (1566-1645) foi um poeta italiano nascido em Pistóia, mas que desejoso de fazer fortuna perambulou por Roma, Nápoles, Genova, Milão e novamente Roma, onde se tornou secretário de Maffeo Barberini, depois Papa Urbano VIII, que o encarregou de escrever um poema sobre a reconquista da Cruz aos persas, pelo imperador bizantino Heráclio I (575-641). Quando Urbano VIII subiu ao trono pontifício, Braciollini recebeu honras e privilégios, sendo posto a serviço do cardeal Antônio Barberini. Mas além da Cruz Reconquistada, Braciollini escreveu várias tragédias, dramas, poemas, sonetos e canções, inclusive o poema épico-cômico O Escárnio dos Deuses. Entre seus trabalhos existe um conto interessante que merece ser relatado.
Um camponês que vendia patos seguia pelas ruas oferecendo suas aves, quando em determinado momento foi abordado por uma linda jovem que pretendia ficar com uma delas. O moço estava na flor da idade, com todos os seus instintos funcionando a pleno vapor, e por isso se interessou de imediato pela freguesa, mas não como freguesa, e sim para outras coisas que no momento não precisam ser explicadas em detalhes. Conversa vai, conversa vem, pechincha daqui, pechincha dali, a jovem acabou concordando com os termos da transação que o vendedor propunha, e depois de tudo feito, a moça quis levar a ave, mas o camponês pediu um pouco mais por ela, e assim as propostas e contra-propostas foram sendo apresentadas com grande entusiasmo pelas duas partes, até que em determinado momento o marido da freguesa surgiu no canto onde ela estava com seu fornecedor. Ao ver os dois em posição pelo menos suspeita, o homem perguntou o que estava acontecendo, e o rapaz, aparentemente indignado, explicou-lhe que ainda faltavam dois vinténs para que sua esposa completasse o pagamento do que havia comprado. Então o marido encerrou o assunto: “Se é tão pouca coisa que está atrasando o nosso almoço, aqui está o dinheiro”. E pagou o pato que havia iniciado toda aquela confusão.
Essa história pequena e divertida chegou ao conhecimento do público, e como abordava um fato extremamente pitoresco, acabou se tornando popular e inspirando alguns dos escritores da época em que aconteceu. Foi dessa forma que surgiu a expressão “pagar o pato”, que com o correr do tempo e as variadas versões dadas à “negociação” original, acabou tendo seu sentido alterado e passou a transmitir a idéia atual de que alguém foi enganado e responsabilizado por algo que não fez, assumindo as suas conseqüências.
O escritor Mário Prata explica de outra forma a existência dessa locução. Diz ele que ao preparar o livro “Mas Será o Benedito?”, publicado pela Editora Globo, em 1996, tratou de ouvir preliminarmente diversos filólogos sobre a origem de algumas das expressões idiomáticas mais conhecidas no país, mas cada um dos procurados lhe deu versão diferente sobre cada uma elas. Foi então que o autor decidiu utilizar suas próprias proposições para justificar cerca de 419 ditos populares, inclusive o “pagar o pato”, para o qual ele faz uma divertida exposição. Segundo Mário Prata, “Pato é aquele que perde no jogo. Toda rodada tem um pato. A expressão vem daí: ´Quem é que vai pagar o pato?´, quando ele raramente ganha. Todo mundo odeia pagar o pato. E quem sofre é o pato”.
Essa e outras expressões (como “com a mão na roda”, “engolir sapo”, “molhar o biscoito”, “encher lingüiça” e “tirar leite de pedra”) são levadas ao pé da letra no livro “Pequeno Dicionário Ilustrado de Expressões Idiomáticas”, de Everton Ballardin e Marcelo Zocchio, onde eles apresentam em fotografias cerca de 50 ditos populares mais falados no eixo Rio-São Paulo. Esse trabalho levou dois anos para ser concluído, e sobre ele Ballardin explica: “Nossa proposta é baseada no humor. Não há um propósito acadêmico visando explicar a origem dos ditos populares, pois não fizemos um livro para filólogos, mas sim para levar às pessoas a linguagem regional com humor. Explicar seria enfadonho”.