FALAR PELOS COTOVELOS

Horácio (65-8 a.C.), que muitos críticos consideram como o mais completo poeta romano, foi também, segundo eles, um lírico que escrevia sátiras, um estóico que celebrava o vinho e o amor, um moralista que sempre fazia o que lhe parecia melhor, mas acima de tudo, um homem preocupado com os problemas do mundo e dos seus semelhantes. Em 44 a.C. ele ingressou no exército e foi nomeado tribuno militar e comandante de legião, mas após uma experiência militar mal sucedida, resolveu dedicar-se inteiramente à literatura.

 

Começou com Épodos, poemas satíricos que retratam numerosas personagens políticas e literárias da época, e prosseguiu com Sátiras, onde são feitas criticas a sociedade do seu tempo, fustigando os ridículos e excessos de seus contemporâneos. Nessas obras Horácio fala das pessoas acostumadas a conversar segurando e puxando o cotovelo dos ouvintes, para lhes chamar a atenção, e essa referência não foi esquecida, atravessando os tempos até chegar aos dias de hoje.

 

“Falar pelos cotovelos” é a expressão com que se costuma identificar os que conversam além do normal, o que possivelmente possa ter dado origem ao interessante lembrete - “quem conversa demais dá bom dia a cavalo” - que os homens do interior brasileiro continuam fazendo aos que abusam do direito da palavra. Dessa forma, as conversadeiras, que são as mulheres que conversam demais; as faladeiras, ou mulheres faladoras; as tagarelas, ou linguarudas e indiscretas; as enredeiras e mexeriqueiras, exímias praticantes da arte de fazer mexericos e intrigas; as fuxiqueiras, que fazem o mesmo que as anteriores; bem como seus correspondentes masculinos, pertencem a uma categoria de pessoas que por não respeitarem as regras da boa educação, falam até por onde não devem, com a agravante de sempre procurarem tocar nos outros como forma de despertar ou prender a sua atenção.

 

O escritor Guilherme de Figueiredo, em seu livro “Tratado Geral dos Chatos”, define esse tipo de indivíduo, macho ou fêmea, como sendo um “ser cuja presença, existência, atitude, ação ou lembrança, continuadamente, tem a capacidade de inspirar sentimentos contrários à alegria de viver, à paz de espírito e à paz mundial”. E apresenta uma relação de chatos bonzinhos e agressivos, aos quais classifica como "catalíticos, pirotécnicos, hamletianos e vivissectólogos, entre outros, cuja característica comum é o uso imoderado da palavra em qualquer conversa inicialmente amistosa”. Como acontece, por exemplo, com os “catequéticos, que como o nome o diz, procuram converter-nos a qualquer coisa: religião, política, bridge, Flamengo, ioga, sauna, Sacha Distel, maconha.”

 

Sobre esse mesmo assunto o professor Raymundo de Lima, da Universidade Estadual de Maringá, Paraná, diz o seguinte:

 

“O ‘Tratado geral dos Chatos’ de Guilherme de Figueiredo (1993) possivelmente foi o primeiro estudo não chato sobre o assunto. Em vez de fazer uma tese, geralmente chata, esse autor preferiu escrever um livro leve, bem humorado, beirando a ironia. A chatice, neste livro, é definida como: falta de educação, inconveniência, impertinência, algo maçante, enfadonho, cacete, cricri, xarope, grosseiro, enchedor, repetitivo, que estraga nosso bom humor ou o nosso prazer. Figueiredo aponta vários tipos de chatos: o etílico, o dom-juanesco, o confidencial (que gosta de falar no nosso ouvido), o astrochato, o famoso ‘chato-de-galocha’, o mala, o ‘sem noção’, etc.

 

A revista Superinteressante de junho/ 2004 chamou a atenção para alguns tipos de chatos atuais: o cuspidor, o prestativo, o folgado, etc. Mas, é impossível fazer um levantamento completo visto que os chatos se multiplicam numa velocidade estonteante. Recentemente aparecem com força social o e-chato, o politicamente correto, o academicamente correto, o fundamentalista religioso ou laico... Um sujeito que sempre prega a “revolução” por uma única classe, o proletariado, eleito pela história como se fosse por Deus, é igualmente chato como qualquer pregador de religião convencional. Chateia não pela sua fé, mas porque ele quer nos convencer ser este um discurso científico”.