A inimizade entre cachorro e gato é conhecida desde tempos antigos. Sobre ela o fabulista Jean de La Fontaine manifestou seu pensamento na narrativa originalmente intitulada “La Querelle des chiens et des chats, et celle des chats et des souris”,da mesma forma como diversos outros autores, entre eles alguns nacionais, também já deram seu recado a respeito da conhecida antipatia e mal-querença que os caninos e felinos domésticos, e estes em relação aos ratos, mantém entre si, um não suportando a presença do outro. A etiologia, ou ciência das causas, não explica o por quê dessa aversão natural com que cão e gato, e gato e rato, se encaram, o mesmo não acontecendo, porém, com a cultura popular.
Uma das versões sobre a origem dessa querela - que é como a classifica La Fontaine - diz que antigamente os bichos da floresta eram amigos uns dos outros. O leão reinava sobre todos, e por isso eles viviam em paz sob o seu mando. Um dia, Nosso Senhor mandou que o rei dos animais os libertasse, dando-lhes o direito de ir e vir para onde e quando quisessem. O leão então determinou aos bichos mais ligeiros que entregassem as cartas de liberdade aos demais, cabendo ao gato a tarefa de levar ao cachorro o seu documento de alforria. O bichano saiu para cumprir sua missão, mas no caminho encontrou o rato bebendo mel de abelhas. Este perguntou: “- Que pressa é essa, camarada gato?”, e o gato respondeu: “- Preciso entregar essa carta ao camarada cachorro!”. Ouvindo isso, o rato propôs: “- Descanse um pouco e aproveite para beber desse melzinho gostoso”.
O gato aceitou a sugestão, lambeu o que quis e depois deitou e dormiu. Curioso, o rato foi ver o que gato trazia, e encontrou uns papéis. Meteu neles o dente e roeu, roeu, roeu, deixando tudo picado, mas quando percebeu o que tinha feito, juntou tudo e colocou dentro da sacola do gato, tratando, em seguida, de se esconder na mata. Assim que acordou o gato foi procurar o cachorro, e ao encontrá-lo, entregou-lhe a encomenda. O cachorro viu então que tudo estava roído, e como, por causa disso, não podia provar ao homem que era bicho-livre, ficou zangado com o gato e correu atrás dele, para matá-lo. O gato, por sua vez, sabendo que tudo tinha acontecido por culpa do rato, saiu atrás do rato, para vingar-se. E até hoje, cachorro, gato e rato, são inimigos irreconciliáveis.
Sobre o mesmo tema existe também na literatura de cordel pernambucana um romance (incompleto) de autor desconhecido, denominado “A Alforria do Cachorro”, explicando o ódio entre cães, gatos e ratos. Seus versos dizem o seguinte:
No tempo em que o rei francês / regia os seus naturais, / houve uma guerra civil / entre os brutos e animais. / Neste tempo era o cachorro / cativo por natureza; / vivia sem liberdade / na sua infeliz baixeza. / Chamava-se o dito senhor / Dom Fernando de Turquia; / e foi o tal cão passando / de vileza a fidalguia. / E daí a poucos anos / cresceu tanto em pundonor, / que os cães o chamaram logo / de Castela Imperador.
Veio o herdeiro do tal / Dom Fernando de Turquia, / veio a certos negócios / na cidade da Bahia. / Chegou dentro da cidade, / foi à casa de um tal gato; / e este o recebeu / com muito grande aparato. / Fez entrega de uma carta, / e ele a recebeu; / recolheu-se ao escritório, / abriu a carta e leu.
E então dizia a carta: / "Ilustríssimo senhor / Maurício - Violento – Sodré - / Ligeiro - Gonçalves - Cunha - / Sutil - Maior - Ponte-Pé. / Dou-lhe, amigo, agora a parte / de que me acho aumentado, / que estou de governador / nesta cidade aclamado. / Remeto-lhe esta patente / de governador lavrada. / Pela minha própria letra / foi a dita confirmada."
Ora o gato, na verdade, / como bom procurador, / na gaveta do telhado / pegou na carta e guardou. / O rato como malvado, / assim que escureceu, / foi à gaveta do gato, / abriu a carta e leu. / Vendo que era a alforria / do cachorro, por judeu, / por ser de má consciência, / pegou na carta e roeu. / Roeu-a de ponta à ponta, / e pô-la em mil pedacinhos, / e depois as suas tiras / repartiu-as pelos ninhos.
O gato, por ocupado / lá na sua relação, / não se lembrava da carta / pela grande ocupação. / E depois se foi lembrando, / foi caçá-la e não achou. / E por ser maravilhoso / disto muito se importou...
Já Reinaldo Pimenta, em “A Casa da Mãe Joana - 1”, explica que a expressão “fazer de gato sapato”, com significado de maltratar ou tratar alguém com desprezo, teria surgido por associação com o mais vil dos ultrajes felinos: ser submetido por um cão e aí ficar como “gato sob pata”. Em seguida, diz o professor, “sob pata” se teria transformado em “sopata”, tal como “sob o papo” virou “sopapo”, e “sob pé” virou sopé. Mas a palavra nem chegou a se estabelecer, sendo logo substituída por sapato, porque primeiro, ninguém conhecia sopata; segundo, sapato todo mundo conhecia e era a palavra mais parecida com sopata; e finalmente, sapato rimava com gato.
Existem, ainda, outras explicações para a frase-feita. O filólogo José Pereira da Silva, em trabalho sobre as frases-feitas, esclarece:
João Ribeiro ensina que fazer de gato sapato indica o erro de leitura ou de escrita no tempo em que as abreviaturas eram muito freqüentes e podiam induzir a engano. Antigamente sapato era escrito com ç e a palavra gato podia ser lida como çapato na abreviatura çato. É até possível. Mas o mestre continua: "É digno de nota que o sentido da frase indica menos um erro de leitura que uma depreciação e motejo, o que indica já uma metáfora." A. Faria argumenta que a frase provém de um jogo infantil. E Câmara Cascudo acrescenta que tal jogo era uma modalidade da cabra cega ou cobra cega, em que "uma criança, sempre de olhos vendados, é batida pelos companheiros que empunham sapatos, chinelas, varinhas, até que consiga agarrar a um deles, seu substituto." Gato-sapato seria esta criança "entregue ao arbítrio alheio, humilhada, abúlica, ínfima e sofredora." Embora ambas as explicações pareçam corretas, creio que a origem mesma da expressão é a que propôs João Ribeiro. O jogo infantil aproveitou a expressão já existente e aplicou-a com sentido semelhante ao ser humano, fazendo-a sobreviver.