FAZER UMA VAQUINHA

João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond, fundador do bairro carioca de Vila Isabel e criador do primeiro jardim zoológico do Rio de Janeiro, buscava um meio de atrair mais visitantes a esse seu novo negócio quando foi convencido por Manuel Ismael Zevala, um mexicano astuto e cheio de malandragem, a adotar uma variação do jogo das flores que o mesmo havia trazido da Europa e tentara implantar na cidade, mas sem conseguir sucesso.

 

Foi em razão disso que a partir do dia 3 de julho de 1892 os visitantes que cruzavam o portão de entrada do Jardim passaram a receber um papel que indicava um dos 25 animais existentes no parque, concorrendo dessa forma ao sorteio diário que poderia pagar um prêmio até vinte vezes maior que o preço pago pelo ingresso. No final da tarde, o nome e o desenho do animal sorteado eram mostrados em um quadro colocado no alto de um mastro, ganhando o prêmio quem tivesse em seu poder o bilhete respectivo. Sobre o acontecimento, assim se manifestou o Jornal do Comércio em sua edição de 05 de julho de 1892:

 

"Foram inaugurados anteontem diversos divertimentos no Jardim Zoológico, entre os quais o do sorteio dos animais, que tem por fim animar a concorrência àquele estabelecimento. Esse sorteio consiste no seguinte: dentre 25 animais escolhidos pela empresa, é tirado um diariamente e metido em uma caixa quando começa a venda de entradas. Às cinco horas da tarde, a um sinal dado, abre-se a caixa e a pessoa que tem a entrada com o nome e o desenho do animal, ganha-o como prêmio. No próximo domingo o público lá encontrará diversos divertimentos e jogos infantis. Está em construção uma grande sala destinada a bailes populares”.

 

Segundo os jornais da época, essa novidade fez tanto sucesso que se transformou em divertimento da alta sociedade carioca, ganhando em seguida as ruas e criando raízes no meio da população que o considerava como o mais democrático dos jogos de azar, porque permitia apostas de qualquer valor. E como cada um dos vinte e cinco números que compunham o quadro de possibilidades representava um animal diferente, a redundância se tornou inevitável: o sistema passou a seu conhecido como o “jogo do bicho”. Sobre os sorteios iniciais, assim se manifestava diariamente a imprensa:

 

"Para os azaristas - No Jardim Zoológico venceu ontem o avestruz. A empresa pagou de prêmios 680$." - O Tempo, 10 de julho de 1892.

"Jardim Zoológico - Venceu ontem o gato. A empresa pagou de prêmios 1:100$." - O Tempo, 14 de julho de 1892.

"Jardim Zoológico - Venceu ontem o cavalo. Pagou-se de prêmios 740$. Amanhã (domingo) das 3 horas da tarde em diante haverá bondes diretos. Divertimentos diversos." - O Tempo, 16 de julho de 1892.

"Jardim Zoológico - Venceu ontem o cachorro. Pagou-se de prêmio 2:08$." - O Tempo, 17 de julho de 1892.

"No Jardim Zoológico venceu ontem o pavão. Pagou-se prêmio de 1:140$." - O Tempo, 19 de julho de 1892.

"Jardim Zoológico - Venceu ontem o coelho. Pagou a empresa prêmios na importância de 640$000." - Gazeta de Notícias, 6 de julho de 1892.

 

Vai daí que em 1920, segundo se diz, torcedores cariocas do time de futebol do Vasco da Gama resolveram incentivar os atletas do seu clube oferecendo-lhes prêmios em dinheiro, e para isso resolveram aproveitar aquele jogo de azar já então muito conhecido, estabelecendo uma escala de valores onde o resultado da partida determinava a premiação: no caso de empate, prêmio de 5 mil réis, ou “um cachorro”, animal representado no “bicho” pelo número cinco; uma vitória comum garantia 10 mil réis, ou “um coelho”, e a vitória importante o “bicho” maior, 25 mil réis, ou “uma vaca”, representada pelo mesmo número.

 

Com o correr do tempo e o uso de alguns números do jogo para identificar outras coisas que não uma aposta, “fazer uma vaca”, ou “fazer uma vaquinha”, passou a representar a divisão de uma despesa entre várias pessoas, da mesma forma como a premiação dos jogadores vascaínos era rateada entre torcedores que no fundo, no fundo, desejavam mesmo era ter motivo para pagar aos atletas do seu time o prêmio máximo de 25 mil réis, ou uma vaca.