O barro é usado desde tempos pré-históricos na fabricação de diversos objetos úteis e também para emprego na cerâmica. As primeiras dinastias egípcias o aproveitaram como material de construção, o mesmo acontecendo na Caldéia e na Assíria, onde a carência da pedra era preenchida pela confecção de tijolos feitos com esse tipo de material. Por sua vez a cerâmica, que é a arte de modelar a argila para a fabricação de louças e utensílios, também é uma atividade que nos vem da mais longínqua antiguidade, já que vestígios encontrados nas necrópoles e outros lugares habitados pelos homens da época referida, indicam que ela foi uma das primeiras e mais remotas indústrias humanas.
Acontece que depois de obter os vestuários e as armas de que precisava, uma outra necessidade fundamental - onde morar - levou o homem a aproveitar de forma progressiva a abundante matéria plástica que encontrava à sua disposição nos limos depositados pelas águas, pois além de ser fácil de modelar, ela soldava-se naturalmente, endurecia depois de seca, e por isso podia guardar suas reservas de água e alimentos. A partir daí a técnica de se produzir alguma coisa com o barro veio sendo aprimorada paulatinamente, primeiro com o torno criado no Extremo Oriente, que permitiu padronizar a espessura das paredes de um mesmo produto, eliminar a assimetria de suas curvas e outras deformações, e mais tarde com a descoberta do processo de vitrificação, que possibilitou a correção da permeabilidade das argilas, até então absorventes e penetráveis pelos corpos gordos.
Durante algum tempo certos materiais continuaram sendo feitos manualmente, inclusive a telha conhecida como colonial, porque era a fabricada no Brasil colônia. Em meados dos séculos 16 e 17, como ainda não existiam as máquinas, as telhas eram moldadas nas coxas dos escravos, mas eles tinham físicos diferentes e por isso as coxas de um eram desiguais em relação às dos outros, daí que as telhas produzidas por eles não coincidiam em forma e tamanho, o que dificultava o encaixe das peças e tornava disforme e mal acabado o telhado que cobriam. A mecanização do procedimento industrial redundou em produtos finais de alta qualidade e formato uniforme, com a conseqüente rejeição dos que apresentavam defeito. Com isso as telhas defeituosas passaram a ser classificadas como “feitas nas coxas”, numa alusão ao trabalho feito pelos escravos, mas a fala ganhou a simpatia popular e hoje a expressão “feito nas coxas” é aplicada a qualquer coisa mal feita que a gente encontre pela frente.
O site www.ceramicanorio.com fornece aos seus visitantes uma série de informações interessantes sobre a utilização do barro na confecção dos mais diferentes objetos. Uma delas informa que “No Haiti há carência de tudo: educação, saúde, alimentos, gás, luz elétrica, transporte público, coleta de lixo, rede de água e esgoto e muito mais. A situação de miséria no país está estampada no rosto de cada habitante. Para matar a fome comem até ‘sapatés’ - mistura de resto de óleo de cozinha, barro e água . Este tipo de bolacha costuma medir cerca de 12 cm de diâmetro e 1 cm de altura, e é modelada com a ajuda de uma colher. Comumente confeccionadas e expostas nas ruas para o consumo parecem ao estrangeiro, num primeiro momento, tratar-se de artesanato popular”.
Uma outra observação no mesmo site, extraída de “A Cerâmica Popular da Bahia”, de C.J. da Costa Pereira, Salvador-Bahia, Livraria Progresso Editora,1957, página 32, nos dá conta de que " ... entre nós, o apego ao barro pelo paladar tem sua representação extrema patologicamente arraigada em algumas populações, pelo vício de comer barro, num ‘incesto medonho’ – para usar a bela imagem de Jorge de Lima que tão bem descreveu uma delas. Isto, aliás, era um velho hábito em Portugal quando no século XVII as damas da sociedade comiam pedaços de barro durante os saraus aristocráticos, talvez visando emagrecer e tornarem-se esguias e pálidas. Esta quase alucinação chegou a tal ponto que sabe-se não fora raro os padres, como penitência em virtude da confissão, proibirem as mulheres de comer barro durante um certo tempo, conforme nos conta Madame Aulnoy”.