FICAR A VER NAVIOS

Dom Sebastião (1554-1578), ainda não havia completado os quatro anos de idade quando herdou de seu avô, João III, o reino de Portugal, tendo sua avó Catarina assumido a regência. Mas a forte influência exercida na sua formação moral pelo padre jesuíta Luiz Gonçalves da Câmara, seu preceptor e confessor, não só permitiu que na época a Companhia de Jesus interferisse fortemente na vida política do país, como também precipitou a tendência doentia do príncipe para os grandes empreendimentos.

 

Por isso ele se tornou mais tarde um cavaleiro medieval místico que pretendia dar continuidade às Cruzadas e estender a soberania dos países cristãos da Europa sobre a Terra Santa e regiões ocupadas pelos muçulmanos.

 

Declarado maior de idade no ano de 1568, Sebastião assumiu finalmente o poder, e cerca de dez anos mais tarde, atendendo ao pedido de auxílio que lhe fizera um dos dois príncipes muçulmanos que disputavam o domínio do Marrocos, em território africano, em troca de largas concessões territoriais, decidiu participar de uma campanha militar visando conquistar aquele país e assim restaurar a grandeza lusitana.

 

Apesar dos prudentes conselhos que lhes foram dados, o jovem rei  entusiasmou-se com a proposta e partiu então para a guerra, onde morreu juntamente com a maior parte dos seus soldados na famosa batalha de Alcácer-Quebir, acontecida no dia 4 de agosto de 1578, quando arremeteu contra as hostes muçulmanas de Abd-al-Malic, ocupante do trono marroquino, e desapareceu sem que os fidalgos que o acompanhavam pudessem recolher seu cadáver.. Seu corpo jamais foi encontrado.

 

O desaparecimento de Dom Sebastião provocou uma crise sucessória em seu reino, e isso redundou na sua anexação pela Espanha (de 1580 a 1640), governada por Felipe II. Depois de alguns meses e após algumas lutas, Felipe II foi finalmente reconhecido como rei de Portugal com o nome de Felipe I, iniciando-se assim um período de domínio espanhol sobre os portugueses.

 

Mas muitos destes não se conformaram com tal situação, e como alimentavam a esperança de que o retorno do seu monarca devolveria o orgulho e a dignidade à pátria dominada, passaram a freqüentar em Lisboa um lugar conhecido como Alto de Santa Catarina, onde ficavam observando as embarcações que entravam no porto, aguardando ansiosamente a chegada de Dom Sebastião. Daí a origem da expressão “ficar a ver navios”, representando a esperança lusitana quanto à volta de seu soberano.

 

Esse movimento de fidelidade ao monarca deu origem ao sebastianismo, fruto da convicção de que Dom Sebastião havia escapado da morte por milagre e estaria preso numa ilha misteriosa, de onde voltaria um dia para libertar a nação portuguesa de seus opressores. Além de ter ensejado diversas profecias, essa lenda também proporcionou um tipo de literatura que perdurou até o século 19, e era uma crença tão importante que quando cerca de sessenta anos mais tarde, em dezembro de 1640, Dom João IV, fundador da dinastia de Bragança, assumiu o trono de Portugal, foi obrigado a jurar solenemente que o entregaria ao rei desaparecido assim que este viesse reclamá-lo.