Na fábula ”Os Viajantes e o Urso”, de Esopo, dois viajantes passavam por uma estrada quando a certa altura do caminho deram de cara com um urso que havia acabado de sair da floresta. O que avistou a fera em primeiro lugar correu e subiu numa árvore, pondo-se a salvo, mas o outro, sem saber o que fazer, deitou-se no chão e fingiu que estava morto.
O urso se aproximou dele, começou a cheirar as suas orelhas, e depois de fazer isso por algum tempo achou que o homem realmente não estava vivo, desinteressou-se e foi embora. Aí o outro desceu da árvore, chegou perto do companheiro ainda deitado e perguntou:
- O que foi que o urso cochichou em seu ouvido?
E este respondeu:
- Ora, ele só me aconselhou a pensar duas vezes antes de sair por aí viajando com gente que abandona os amigos ao menor sinal de perigo”.
A moral da história é que a desgraça põe à prova a sinceridade dos que se dizem amigos.
A expressão “fingir-se de morto” é decorrente dessa fábula e se aplica às pessoas que diante de situações delicadas costumam fingir que não ouvem e que não vêem o que está acontecendo em torno de si, ou então disfarçam de todas as formas possíveis e imagináveis para escapulir dos assuntos que não lhe interessam, fazendo de conta de que nada daquilo tem a ver com ele. Na verdade, ninguém sabe quando a locução começou a ser usada, mas todo mundo tem certeza de que não é coisa nova, porque muita gente já se valeu deste artifício para contornar problemas difíceis, livrar-se de situações embaraçosas, e até mesmo salvar a vida.
Há muito tempo o Brasil tem ocupado posição de destaque na lista dos países onde a corrupção é das mais ativas, e talvez seja essa a fonte que alimenta a arte brasileira de fingir-se de morto, fazendo-a ser praticada com perfeição pelas figuras eminentes que. volta e meia, são apanhadas com a mão na cumbuca. Provavelmente está aí a razão pela qual, a partir desse momento, os seus nomes desaparecem do noticiário, suas figuras somem de circulação, para reaparecer depois de algum tempo, quando o deslize foi esquecido pela população e a época de eleição está chegando.
É quando então eles voltam às colunas dos jornais já devidamente encarrapitados em algum cargo público, e prontos para a prática de novas e compensadoras estripulias, porque esse é o costume nacional que tem prevalecido através dos tempos, e salvo engano, vai continuar sendo assim pelos anos à fora.
Felizmente, existe gente que não pensa assim, e é essa a mensagem de um poeta português quando diz que:
“Recuso-me a deixar de pensar, para fingir que sou atrasado mental. / Recuso-me a deixar que me pintem de preto, para fingir que sou negro. / Recuso-me a fechar os olhos, para fingir que sou cego. / Recuso-me a tapar os ouvidos, para fingir que sou surdo. / Recuso-me a tapar a boca, para fingir que sou mudo. / Recuso-me a deitar, para fingir que estou morto. / Recuso-me, enfim, a alinhar nesta farsa em que Portugal se transformou”.