HIP, HIP, HURRA!

As Cruzadas foram expedições que tiveram como objetivo a libertação dos lugares santos situados na Palestina e venerados pelos cristãos. A invasão desses lugares acontecera em 638, quando os árabes conquistaram Jerusalém mas continuaram permitindo as peregrinações, apesar da intolerância manifestada contra os cristãos. Porém, quando os turcos invadiram a Síria em 1077, iniciaram as perseguições aos cristãos e peregrinos que pretendiam visitar Jerusalém, o que desencadeou a reação da cristandade.

 

O papa Gregório VII (1020-1085) já havia lançado a idéia das Cruzadas, cuja finalidade seria a libertação dos lugares santos, mas foi o papa Urbano II (1042-1099), seu discípulo, que entregou a Pedro, o Eremita (1050-1115), eremita e monge francês, a tarefa de convencer os cristãos europeus de que essa medida era necessária. Ao todo foram realizadas oito Cruzadas (além da Cruzada dos Albigenses, 1208, e a Cruzada das Crianças, 1212), a primeira delas acontecendo entre 1096/1099, e a última em 1270/1274. Os primeiros cruzados reconquistaram Jerusalém depois de terrível carnificina, criando o Império Franco da Ásia, de curta duração em virtude das divergências que surgiram entre os cristãos. O sultão sírio-egípcio Saladino (1138-1193), cujo nome completo era Iusuf ibn-Ayyub Salah-al-Din, a reconquistou em 1187, mas de 1229 a 1244 a cidade retornou ao domínio dos cruzados, quando então voltou às mãos dos árabes.

 

Diz a lenda que por ocasião da última queda da cidade, os cruzados, no calor do combate, gritavam “ Hip”, ou “Hep”, que seriam as iniciais da frase latina “Hierosolyma est perdita”, ou “Jerusalém está perdida”, completando-a com o brado “Hurra”, uma variação da palavra eslava “hu-raj”, cujo significado seria o de “ao paraíso”. Assim, na verdade eles estariam pretendendo dizer “Jerusalém está perdida, estamos a caminho do paraíso”, mas não existe comprovação para essa teoria, nem tampouco para a que levanta a hipótese de que “Hep” poderia ter sido uma forma como os pastores medievais chamavam as cabras de seus rebanhos.

 

Na visita que fez à Terra Santa celebrando a passagem do segundo Milênio do Cristianismo, o papa João Paulo II pediu perdão aos judeus e muçulmanos pelo fato da Igreja Católica ter instigado, há 900 anos atrás, a Cruzada que terminou por produzir um terrível massacre da população civil judaica e árabe de Jerusalém, por parte dos cavaleiros cristãos. Um dos relatos sobre esse triste episódio diz que “os pacíficos habitantes da cidade, judeus e muçulmanos, representavam para eles o demônio, a impureza, a profanação dos lugares santos. Não os perdoaram. Os árabes que encontraram no pátio da Grande Mesquita foram exterminados a espadaços e a lançadas. Aos judeus coube um destino pior. Encerrados no Templo de Salomão, queimaram-nos vivos. Pouparam apenas a vida do governador egípcio Iftikhar ad-Dawla, e dos seus guardas, a quem Raymond de Saint-Gilles, um cavaleiro de cabelos brancos, que "desdenhava ser cruel com os fracos", jurara proteção. Até hoje os historiadores embaraçam-se com o número das vítimas que os cristãos fizeram em Jerusalém. Oscilam entre 6 mil a 40 mil mortos! E nem se pôde responsabilizar os chefes pela matança. Os barões bem que tentaram conter a soldadesca, mas em vão. Fanatizado, o cristão comum, considerando-se um vingador celestial, virara um animal feroz a quem um estripamento, uma carótida esguichando, ou a degola dos gentios, parecia a justa revanche dos tormentos de Cristo. Quem respirasse era morto. Mataram inclusive os animais domésticos.

 

O poeta italiano Torquato Tasso (1544-1595), em Jerusalém Libertada, de 1575, assim se refere a essa carnificina: "Pelas muralhas e portas, derrubando, destruindo, ou prendendo fogo no que se lhe opunha, o exército vencedor penetra então na cidade. O ferro semeia por todas as partes a desolação e a morte, o luto e o horror, suas companheiras. O sangue forma lagos ou corre em arroios que arrastam no seu curso cadáveres e moribundos."  Alguns anos antes dessa catástrofe, o poeta árabe al-Maari, que morrera em 1057, separara os homens em dois grupos: "os que têm cérebro mas não têm religião; e aqueles que têm religião mas não têm cérebro". O grande massacre ocorrido há 900 passados, além de ter azedado para sempre a relação entre os cristãos e os muçulmanos, permaneceu como um desses estúpidos altares de sacrifício erguidos pelos homens que têm religião, mas não têm cérebro.

 

Com o passar do tempo o brado de “hip, hip, hurra!...” modificou seu sentido inicial e passou a representar um grito eufórico de vitória dado por atletas quando comemoram um grande feito esportivo, seja ele individual ou coletivo.