1823 - COMBATE DE JENIPAPO - Piauí

Campo Maior fica situada na região centro-norte do Piauí, distante cerca de 120km da capital estadual. Em suas terras, às margens do ribeirão Jenipapo, aconteceu o combate que determinou a preservação da unidade nacional.

 

 Ao retornar a Portugal em 1821, levando os restos mortais da Rainha Mãe, do Príncipe Pedro Carlos, e mais alguns milhões de cruzados, deixando vazios os cofres do Banco do Brasil e do Erário Público, D. João VI certamente previa que a independência do Brasil era inevitável, mas como pretendia manter o norte do país (Piauí, Maranhão e Pará) em suas mãos, nomeou para o comando das armas em Oeiras, então capital piauiense, o major João José da Cunha Fidié.

 

Meses depois, em 07.09.1822, o príncipe regente D. Pedro tornou realidade o que a coroa portuguesa suspeitava, e quando essa notícia finalmente chegou ao Piauí, alguns patriotas liderados por João Cândido de Deus e Simplício Dias da Silva, declararam na cidade de Parnaíba, em 19.10.1822, sua adesão à causa da independência e aclamaram D. Pedro como imperador do Brasil. Pretendendo sufocar o levante, Fidié deslocou suas tropas de linha para lá, cerca de 700km distante, mas ao entrar na vila em 18.12.1822, encontrou-a guardada pelo brigadeiro Dom Miguel, que tinha vindo do Maranhão em seu auxílio. Os chefes da revolta refugiaram-se em Granja no Ceará.

 

Decorrido pouco mais de um mês, dia 24.01.1823, em Oeiras, Manuel de Sousa Martins, futuro Visconde da Parnaíba (ilustração abaixo), proclamou a Independência e assumiu a presidência da Junta do Governo do Piauí. Informado do que ocorria (28.02.1823) o major Fidié decidiu retornar à capital com 1.100 homens bem armados e 11 peças de artilharia, disposto a castigar os revolucionários, mas sabedor de que as forças nacionalistas concentravam-se em Campo Maior, que aderira ao movimento de independência em 02.02.1823,  para lá seguiu em marcha forçada. Na vila encontravam-se pouco mais de mil piauienses, aos quais se juntaram 500 cearenses, todos sem disciplina nem instruções militar, mas dispostos a morrer pela causa que defendiam. Suas armas: foices, espadas, chuços, facões e velhas espingardas de caça. Discorrendo sobre o episódio, o historiador piauiense Abdias Neves diz que "só a loucura patriótica explica a cegueira desses homens que iam partir ao encontro de Fidié, quase desarmados."

 

O primeiro choque entre eles aconteceu às 9 horas de 13 de março, mas apesar dos comandados de João da Costa Alecrim e Luís Rodrigues Chaves, terem repelido as primeiras investidas portuguesas, Fidié conseguiu atravessar o Jenipapo, escolheu a melhor posição, dispôs seus homens como lhe convinha e passou a alvejar os adversários com as peças de artilharia de que dispunha. O recurso dos nacionalistas estava em atacar os portugueses ao mesmo tempo e por todos os lados, tentando separá-los. Diversas incursões foram feitas, mas rechaçadas com grandes perdas de vidas porque a fuzilaria inimiga arrasava o campo. O combate durou até as 2 horas da tarde. Alguns afirmam que houve 200 brasileiros mortos ou feridos. Outros registram 400.

 

Após cinco horas de combate sob um sol abrasador, os dois lados iniciaram a retirada porque já não dispunham de força suficiente para prolongarem aquela batalha sangrenta. Durante esse procedimento, um destacamento de Sobral, comandado por Alexandre Nereu, atacou os soldados portugueses que guarneciam os carros de transporte, tomando-lhe armamentos e munições, enquanto as tropas lusitanas que seguiam adiante acampavam primeiramente na fazenda Tombador, em Campo Maior, prosseguindo depois no rumo do Estanhado, hoje União, aquartelando-se posteriormente em Caxias, no Maranhão, onde finalmente foram cercados por piauienses e maranhenses, e forçados a se renderem em 31 de julho de 1823.

 

Sobre esta passagem da história piauiense, o escritor João Cândido de Deus e Silva revela que "As próprias mulheres não ficavam indiferentes: mandavam os maridos, os filhos, os irmãos para a guerra, e a fim de que levassem munições e armas vendiam as jóias, se mais nada tinham a vender. A mulher piauiense mostrou, nessa ocasião, a grande fortaleza, o ânimo varonil de lendárias heroínas. Foi inexcedível de amor pelo triunfo completo da Independência - que abraçara, desde as primeiras proclamações."

 

Sobre o mesmo episódio, Adrião Neto, dicionarista biográfico e historiador, diz que “O 13 de março de 1823 é a data da sangrenta Batalha do Jenipapo, a mais sangrenta de todas as batalhas em prol da independência política do Brasil, na qual os heróis piauienses, de todas as classes sociais, especialmente os anônimos, constituídos em sua grande maioria por vaqueiros e roceiros, da região de Campo Maior, ajudados pelos cearenses, escreveram, com sangue, uma das mais brilhantes páginas da História do Brasil, vez que, essa heróica batalha, constituiu-se no fator determinante da consolidação de nossa independência, evitando assim que as Províncias do Piauí, do Maranhão e do Pará fossem incorporadas a Portugal que, em última cartada, para não perder todo o Brasil, queria ficar pelo menos com essa parte que constituía o antigo Estado Colonial do Maranhão”.

 

E sugere:

 

“(...) para apenas e tão somente fazer justiça ao 13 de março, que até agora ainda não foi contemplado com o reconhecimento oficial, sugiro à Assembléia Legislativa que vote uma lei incluindo a data 13 de março de 1823, escrito em caracteres brancos, abaixo da estrela que se encontra estampada na bandeira do estado do Piauí”. Além disso,  “Levando-se em consideração de que o grosso dos combatentes da Batalha do Jenipapo era constituído por vaqueiros e roceiros da região de Campo Maior, sugiro ao Governador para que, ao lado do busto de Leonardo Castelo Branco (Leonardo das Dores), inaugurado no governo anterior, como parte integrante do Monumento aos Heróis do Jenipapo, sejam erigidas duas outras estátuas, uma de um vaqueiro e a outra de um roceiro, armados e em posição de luta”.