DINOSSAURO GIGANTE DE UBERABA

Os fósseis são restos ou vestígios de animais e vegetais que viveram em tempos passados e ficaram preservados nas rochas. Algumas condições especiais são necessárias para que eles se formem, como, por exemplo, o rápido soterramento, a ausência de bactérias e pouco oxigênio, fatores que evitam a decomposição da matéria orgânica. As partes duras, como conchas, dentes, ossos e troncos de vegetais, são preservadas com mais facilidade.

 

A quase totalidade dos fósseis existentes foi encontrada em rochas formadas pela deposição e consolidação de sedimentos, que ao se solidificarem protegem evidências de vidas que existiram há milhões de anos. A cidade de Uberaba e alguns municípios vizinhos, em Minas Gerais, estão localizados sobre uma ampla bacia sedimentar denominada Bacia Bauru, o que explica a quantidade e diversidade de fósseis recolhidos na região, especialmente em Peirópolis. As primeiras descobertas aconteceram em 1945, quando fragmentos de ossos de um dinossauro da família dos titanossauros foram achados próximos à Estação de Mangabeira, 20 quilômetros ao norte de Uberaba. Atualmente, o sítio de Peirópolis possui cinco pontos principais de coleta e uma extensão de 6 km2. A maior parte do que foi achado até hoje se concentra no chamado Ponto I – Price, de onde já foram retirados cerca de dois mil espécimes fósseis, o que o torna referência para pesquisadores de fósseis vertebrados de todo o mundo.

 

Mas Peirópolis, pequeno bairro rural de Uberaba, no Triângulo Mineiro, não pára de surpreender, e as freqüentes descobertas realizadas na região transformaram o local em um dos maiores e mais importantes sítios paleontológicos da América do Sul. Dessa vez, pesquisadores retiraram do solo um dos mais relevantes achados da área no Brasil: fósseis que ajudaram a identificar uma nova espécie de dinossauro, a maior já descrita no país. O Uberabatitan ribeirol, que viveu no fim do período Cretáceo, entre 70 e 65 milhões de anos, pertence ao grupo dos dinossauros, animais que se caracterizaram por ter pescoços e caudas longos, crânios pequenos, patas em forma de colunas, como as de um elefante, e dieta herbívora. A espécie podia atingir de 15 a 20 metros de comprimento, 3,5 metros de altura e 12 a 16 toneladas de peso.

 

Suas proporções explicam o nome: Uberabatitan significa o gigante de Uberaba. Já ribeirol é uma homenagem a Luis Carlos Borges Ribeiro, responsável pelo Centro Paleontológico Price, pelo Museu dos Dinossauros de Peirópolis e trabalhos ligados à educação e pesquisa. Ele participou das buscas que resultaram na descoberta da nova espécie, achado que representa um marco para a paleontologia brasileira. Foram quatro anos de trabalho iniciados a partir da primeira descoberta, esforço esse que envolveu uma equipe de mais de dez pessoas, entre pesquisadores, técnicos e colaboradores.


Em 2004, após três anos de escavações feitas às margens da rodovia que liga Uberaba a Uberlândia (BR-050), na localidade conhecida como Serra da Galga, a equipe de Ribeiro já havia retirado da área pesquisada cerca de 300 toneladas de rocha, conseguindo reunir 298 fósseis, dos quais 198 pertencentes a quatro indivíduos: três da mesma espécie, Uberabatitan ribeirol, sendo um pequeno, um médio e um de grande porte; e o quarto de espécie diferente, identificado como abelissauro, dinossauro terópode (carnívoro), bípede, que atingia até seis metros de comprimento e quatro toneladas de peso. Apesar de fósseis de abelissauros já terem sido encontrados em outros locais, esse foi o primeiro registro na região de Uberaba.

 

A construção da réplica do Uberabatitan durou dois anos, e nela foram utilizados 37 fósseis pertencentes ao indivíduo de porte mediano. Quanto às peças restantes, sua confecção em polímero plástico foi feita a partir de uma modelagem digital. Segundo a equipe responsável pelo trabalho, “as maiores dificuldades encontradas relacionavam-se com as grandes dimensões e peso das peças”. Como o abelissauro encontrado também merecera um holótipo (representação), ambos foram apresentados ao público no mês de setembro de 2008, na casa da Ciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e ali permaneceram até o fim da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, quando então seguiram para o Museu dos Dinossauros, em Uberaba, onde podem ser vistos pelos interessados.

 

A análise da rocha onde os fósseis foram localizados indica que naquela época os climas quentes e áridos alternavam-se com períodos de chuvas torrenciais. Para o professor Ismar de Souza Carvalho, da UFRJ, o estudo dessas mudanças climáticas pode ajudar a compreender o desaparecimento de inúmeros animais e plantas da Terra em um determinado período da nossa história.  Luis Carlos Borges Ribeiro acredita que muitas descobertas ainda serão feitas em Uberaba, porque como as rochas sedimentares são as mais propícias para abrigar restos fósseis, é bem provável que achados importantes continuem a acontecer.

 

Entre os fósseis que integram a coleção do Museu dos Dinossauros, considerado uma referência na área, estão o Uberabasuchus terrificus, crocodilo terrestre que media 2,5 metros de comprimento e pesava 300 quilos (ilustração acima). Diferente dos crocodilos que conhecemos, esse animal possuía patas mais longas e posicionadas abaixo do corpo, o que lhe garantia maior velocidade na caçada. Além de constituir um novo gênero e espécie, ele corrobora a teoria de antigas conexões terrestres entre a América do Sul e a África. Outra descoberta importante foi a pequena Cambremys langertoni, tartaruga de apenas 25 centímetros de comprimento e encontrada em bom estado de conservação. Estudos mostram que a espécie não seria tipicamente aquática ou estritamente terrestre, mas teria o hábito de caminhar no fundo de rios e lagos, o que serviria para confirmar que apesar de na época o clima da área ser semi-árido, existiam na região de Uberaba grandes porções de água a céu aberto.

  

Fonte: Revista Minas na Ciência, edição nº 35, setembro a novembro de 2008.