CAMINHO DO OURO - SÉCULOS 17 E 18

A história do Caminho do Ouro, ou Estrada Real começa no século 16, quando as expedições dos colonizadores portugueses iniciaram a exploração do interior brasileiro. As chamadas “entradas” partiam da cidade de São Paulo em direção à atual Guaratinguetá, dali vencendo a serra da Mantiqueira e embrenhando-se nos sertões de Minas Gerais. Foi essa a rota que muitos bandeirantes percorreram inicialmente em busca dos índios que pretendiam escravizar, mas a constatação e divulgação de que a terra das Gerais era um novo Eldorado, porque rica em ouro e diamantes, fez crescer a atenção e o interesse de aventureiros de toda a espécie, conduzindo para lá um grande número desses caçadores de fortuna.

 

Anos depois, já no início do século 17, certo trecho da trilha foi substituído por outro, que ligava o porto de Parati, no litoral do Rio de Janeiro, à região mineradora de Ouro Preto, então conhecida como Vila Rica. E como a melhor maneira de se construir uma estrada sempre foi a de se aproveitar um caminho já pronto, o traçado da nova rota, posteriormente conhecida como Caminho Velho, acompanhou o percurso que os índios guaianases faziam entre Parati e o vale do rio hoje chamado Paraíba do Sul, até Guaratinguetá. Com isso a coroa portuguesa tencionava fiscalizar a circulação de riquezas e mercadorias que transitavam entre Minas Gerais e o litoral do Rio de Janeiro, que por ser a capital da colônia, possuía os dois maiores portos de onde zarpavam para Portugal os navios levando minerais preciosos garimpados nas jazidas mineiras, além de madeira, açúcar e outros produtos primários. Na época, Parati exercia a função de entreposto comercial, porto escoadouro de parte do que daqui se mandava para Portugal.

 

Mais adiante, início do século 18, a Coroa portuguesa decidiu encurtar a distância entre Minas Gerais e o litoral do Rio de Janeiro, visando aumentar a fiscalização sobre o trânsito de riquezas entre os portos e as minas de ouro e diamantes. O novo trajeto, ou Caminho Novo, encurtava a jornada para o sertão de Minas Gerais em cerca de vinte dias, e começava no Porto da Estrela, na antiga localidade de Magepe, hoje Magé, fundos da baía de Guanabara, dali atravessando a Serra dos Órgãos e seguindo para as cidades agora denominadas Petrópolis, Juiz de Fora, Barbacena, Santos Dumont, Carandaí, Conselheiro Lafaiete, Ouro Branco e Ouro Preto. Ao mesmo tempo, tanto o Caminho Velho quanto o Caminho Novo passaram a merecer vigilância constante, e por isso as trilhas receberam postos de controle e pedágio. A carga partia das minas em lombos de escravos ou de burros, transportada em grandes cestos e baús de madeira, e, ao longo da jornada até Parati e Rio de Janeiro, era pesada, medida e aliviada do quinto, a taxa cobrada pela Coroa. O assunto era de tal importância e a vigilância tão severa que, em 1711, foram recolhidos na Europa todos os livros do viajante Antonil ("Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas"), padre jesuíta que descreveu com riqueza de detalhes todos caminhos de acesso ao sertão das Minas.


As autoridades portuguesas proibiram a abertura de novos caminhos - o que era considerado crime de lesa-majestade, punido com a pena de morte - e em conseqüência, a utilização de qualquer outro trajeto pelos que viajavam entre as duas localidades. Daí que por ser essa a única via de acesso, era por onde todos passavam, desde o imperador e seus soldados, até os mercadores, músicos, intelectuais, senhores e escravos, aventureiros e alguns idealistas que, como Tiradentes, acalentavam o sonho de viver em uma pátria liberta de seus dominadores. Por essa razão, e também para servir de exemplo ao restante da população, quando a inconfidência mineira foi sufocada pela Coroa, e o alferes visionário terminou executado e esquartejado, partes do seu corpo foram expostas em pontos estratégicos da nova estrada, que com sua grande movimentação propiciou o nascimento, às suas margens, de inúmeros arraiais, vilas e povoados, além de postos fiscais e prédios de registro.

 

A última parte da Estrada Real, que vai de Ouro Preto a Diamantina, foi construída no século 18, época em que os diamantes da antiga região do Tejuco, hoje Diamantina, brilharam com mais intensidade. Essa rota foi construída para atender às necessidades da Coroa em ter um caminho que possibilitasse rápido escoamento dos diamantes até a metrópole, e é, por sinal, o trecho que melhor conserva as tradições do interior mineiro. Nele, o que mais se encontra são cidades como Catas Altas, na Serra da Caraça, Santa Bárbara, Conceição do Mato Dentro ou Serro, com seu casario antigo encravado entre as montanhas.