1624 - ARRAIAL DO RIO VERMELHO - Salvador (Bahia)

 

O Arraial do rio Vermelho localizava-se na praia do rio Vermelho, no atual bairro de mesmo nome, em Salvador, Bahia. Em posição dominante sobre a foz do rio Vermelho, a cerca de seis quilômetros a norte do centro histórico de Salvador, foi deste ponto, no contexto da primeira das invasões holandesas do Brasil (1624-1625), após a queda de Salvador, que a resistência luso-brasileira se reorganizou, inicialmente sob a chefia do governador provisório, bispo Dom Marcos Teixeira (que arregimentou cerca de dois mil homens), e, posteriormente, sob a do governador-geral, capitão-mor do Recôncavo da Bahia, Dom Francisco Rolim de Moura. Graças a essa resistência, o inimigo invasor foi contido nos limites da capital. Este arraial foi, certamente, o entrincheiramento que se considera ter existido anteriormente ao Reduto do rio Vermelho*.

 

Os relatos sobre esse episódio esclarecem que em 8 de maio de 1624, uma esquadra holandesa comandada pelo almirante Jacob Willekens, e composta por 26 navios armados com 500 canhões e guarnecidos por 3.300 homens, sendo 1.700 para o combate em terra e ocupação, surgiu diante de Salvador. No dia seguinte os holandeses usaram 16 embarcações para atacar a cidade, e enquanto as fortalezas locais respondiam ao fogo, outras cinco naus que haviam permanecido fora da barra, aproximaram-se da praia próxima ao Forte de Santo Antônio (ilustração acima) e ali desembarcaram, sem encontrar resistência, cerca de 1500 homens.

 

Não conseguindo impedir a invasão, tanto os militares como os civis locais entenderam que a resistência seria inútil e por isso abandonaram Salvador durante a noite, rumo ao interior. No dia seguinte, por terra e por mar, os holandeses desfecharam ataques contra a cidade abandonada, e ao constatarem que nela só restavam poucas pessoas, trataram de invadi-la sem maiores cuidados (maio de 1624), saqueando tudo e aprisionando o governador-geral que não abandonara o seu posto. Foi assim que a sede do Governo-Geral do Brasil caiu em mãos estrangeiras.

 

No entanto, a cerca de uma légua das muralhas de Salvador, os baianos levantaram o Arraial do Rio Vermelho, que daí por diante se transformou no maior obstáculo à expansão da invasão para o oeste. Associando o judicioso aproveitamento do terreno ao emprego de táticas de guerrilhas, os baianos organizaram as companhias de emboscadas que reuniam de 25 a 40 homens, para levarem a luta sem quartel ao invasor. Em pouco tempo esses pequenos grupos de homens cercaram por completo a capital baiana, levando a morte e a destruição a todo inimigo que deixasse as muralhas tentando buscar suprimentos para a manutenção das suas tropas.

 

Tombaram mortos, sob a ação das emboscadas, primeiramente o governador holandês Van Dorth, e logo depois o seu sucessor, o coronel Alberto Shouten, comandante da força terrestre. O sistema de luta ardilosa adotado pelos luso-brasileiros, que causava inúmeras baixas aos inimigos e permitia a apreensão de material de guerra, atemorizou enormemente os holandeses, o que serviu para aumentar ainda mais a confiança, a audácia e a determinação dos defensores, no sentido de expulsá-los definitivamente de suas terras.  O testemunho do padre Antônio Vieira, então vivendo na Bahia, deu conta dos heroísmos e sacrifícios dos baianos para libertar a terra invadida:

 

“Passaram noites e dias sem dormir e descansar, viveram e dormiram sem um teto, se alimentaram precariamente de farinha, padeceram por vezes seguidas frios, fomes e sedes, além de estarem faltos de munição que foi conseguida com o próprio inimigo, através das emboscadas”.

 

Mas era preciso completar o cerco de Salvador com o bloqueio marítimo, razão pela qual, em pouco tempo, canoas e barcos armados singravam a baía, concretizando o isolamento do invasor por mar. Impedidos de desembarcar em outros pontos do Recôncavo para buscar recursos de sobrevivência, 2.800 inimigos, dos quais 1.600 soldados, 700 mercenários de diversas nacionalidades e 500 escravos armados ficaram encurralados. No dia 29 de março de 1624, fundeou, próximo à Ponta do Padrão, poderosa esquadra luso-espanhola, sob o comando de Dom Fadrique de Toledo. Era composta de 52 navios de guerra e cerca de 12.000 homens, entre soldados e marinheiros, dos quais 4.000, aproximadamente, eram portugueses. Havia perto de 1.200 bocas de fogo. Mais significativo ainda foi o reforço dado à resistência baiana por um contingente de brancos e índios, trazidos do Rio de Janeiro, via marítima, por Salvador Correia de Sá e Benevides, (ilustração acima) e de Pernambuco, por Jerônimo de Albuquerque Maranhão.

 

Salvador foi submetida a rigoroso e progressivo cerco, até que os invasores, cedendo terreno, abandonaram os fortes e buscaram proteção nas muralhas da cidade. A partir de 6 de abril de 1625, a luta tornou-se cada vez mais intensa e, segundo Frei Vicente do Salvador, testemunha ocular, “durante vinte e três dias não se passou um quarto de hora, de dia e de noite, sem que se ouvisse o estrondo de bombardas, esmerilhões e mosquetes, de parte a parte”. Os holandeses capitularam no dia 30 do mesmo mês de abril, entregando Salvador com todos os seus valores, além do armamento e munições, navios e escravos. Em contrapartida, permitiram-lhes retornar à Holanda com a roupa, suprimentos para três meses, armas e munições para a defesa na viagem. Os oficiais conservaram as espadas. A 1º de maio de 1625, Dom Fadrique de Toledo, à frente de luso-brasileiros da Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e das poderosas tropas trazidas da Espanha, entrou triunfalmente em Salvador, antes que a dominação holandesa completasse um ano.

 

* O Reduto do rio Vermelho era um fortim com planta no formato de um polígono irregular, erguido em 1711 sobre os vestígios do antigo Arraial do rio Vermelho. Abandonado e em ruínas (1759), foi reconstruído a partir de 1798, sob a invocação de São Gonçalo.