A sucuri pertence à família dos Boídeos, a mais primitiva desse grupo de serpentes, cujos fósseis indicam sua existência no período cretáceo há cerca de 146 milhões de anos. Até hoje elas apresentam vestígios das patas traseiras que seus ancestrais semelhantes a lagartos possuíam, e que na maioria das outras serpentes já desapareceu (dois pequenos espinhos próximos à cloaca, geralmente um pouco maiores nos machos). Além disso, existem vestígios, por dentro, dos ossos da bacia, sem nenhuma função.
Essa cobra não venenosa, encontrada em toda a América do Sul e conhecida por muitos nomes (anaconda, boiúna, sucurijuba, viborão e outros), tem como habitat os rios, pântanos, lagoas e regiões alagadas, abrigando-se em cavernas e na floresta, mas sempre perto de onde exista água. Dela são conhecidas cerca de quatro espécies, das quais as três primeiras ocorrem no Brasil:
- Sucuri-amarela (Eunectes notaeus): encontrada no Pantanal.
- Sucuri-verde (Eunectes murinus): vive na Amazônia, e em alagados na região do cerrado.
- Sucuri-malhada (Eunectes deschauenseei): vive na Ilha de Marajó.
- Sucuri-da-Bolívia (Eunectes beniensis): encontrada na Bolívia.
Considerada a segunda maior serpente em tamanho do mundo, perdendo apenas para a píton reticulada que vive na Tailândia e Indonésia, Ásia, ela pode chegar aos 9m de comprimento (fêmea), enquanto o macho da espécie atinge no máximo 4,5m. A maior sucuri até hoje encontrada tinha 8,80m, o que é comprovado por sua pele exposta no Museu de Londres, Inglaterra, embora no início do século 20, quando o general Cândido da Silva Rondon percorreu a região amazônica em missão exploratória e demarcatória, tenha sido divulgada a informação de que ele havia capturado uma sucuri de 11,60 m.
Apesar disso, alguns escritores e exploradores insistem em dar maior tamanho a esse tipo de réptil, talvez em decorrência da descoberta, no Grande Chaco argentino, dos restos fósseis da extinta espécie Bothrodon pridii, cujo comprimento foi calculado em torno de 20 metros.
A sucuri é carnívora, não escolhendo o que comer para satisfazer sua necessidade de alimento. Sendo assim, ela ingere desde insetos, quando ainda é filhote, até animais de grande porte, passando por peixes, sapos, macacos, antas, capivaras, bezerros, veados, aves, jacarés, tartarugas de água doce e qualquer outro animal desavisado que tenha peso até mesmo igual ao seu próprio, podendo inclusive atacar o homem quando estiver faminta e ele se aproximar do ambiente aquático onde ela vive, embora não existam provas confiáveis de que isso tenha realmente acontecido. Mas as histórias a esse respeito são muitas, envolvendo pescadores, caçadores e gente desprevenida das quais se diz que estavam no lugar errado, e na hora errada.
Caçadora solitária, a sucuri passa a maior parte do tempo na água, onde consegue movimentar-se em velocidade maior do que em terra. Submersa, mantendo apenas o focinho acima da superfície, ela aguarda pacientemente por uma presa, e quando esta passa por perto, ou se detém para beber água, a caçadora dá o bote, agarra-se a ela com uma mordida, e logo se enrola em torno do seu corpo dando várias voltas, apertando-a vigorosamente até que sufoque ou se afogue. A vítima raramente tem os seus ossos quebrados, pois a sucuri apenas a comprime fortemente com seus anéis para impedi-la de respirar, e é dessa forma que as maiores podem matar um cavalo com relativa facilidade. Mas ela também gosta de acompanhar, mergulhada no rio, os animais que andam pela margem, à espera de uma oportunidade para atacá-los. Em terra, ela pode esperar pendurada em alguma árvore, como se fosse um cipó, agarrar pelo dorso a presa que passa descuidada, e em seguida enrolar-se em seu corpo.
Como a digestão da sucuri é lenta, podendo durar até meses, ela costuma se esconder durante esse período, quando então é facilmente encontrada pelo homem e capturada sem maiores trabalhos. Seu tamanho, associado à fama de perigosa, transformaram-na em troféu de fazendeiros e vários tipos de pessoas que ainda fazem questão de mostrar o seu couro como testemunho comprobatório de alguma história mirabolante. Por essa razão, sua força, tamanho e hábitos misteriosos, além da importância que tem na religiosidade dos índios sul-americanos, deram origem às inúmeras lendas, mitos, crendices e enganos que circulam pelo mundo com foros de verdade.
Elas costumam descansar ou tomar sol em pedras das margens ou em galhos sobre a água, mas se assustadas pela presença do homem lançam-se imediatamente ao rio e mergulham, conseguindo permanecer submersas por período de até dez minutos. Porém, quando acuadas, podem atacar e causar ferimentos com sua mordida, que embora não inocule veneno, é forte e capaz de ocasionar sérias infecções.
A sucuri, que vive durante 30 anos, aproximadamente, tem os olhos e narinas no alto da cabeça, para que possa ver e respirar enquanto nada. As fêmeas da espécie liberam substâncias químicas (feromônios) que atraem os machos, e então copulam com cinco a doze deles, todos permanecendo enrolados durante o ato sexual e formando uma enorme bola de serpentes. Elas são vivíparas, ou seja, chocam os ovos dentro do próprio corpo durante 225/270 dias, aproximadamente, após o que nascem de 10 a 20 filhotes já em condições de viverem sozinhos. O problema é que por serem pequenos tornam-se vítimas de predadores como as onças, os jacarés e as piranhas (quando eles têm ferimentos), e por esse motivo poucos conseguem chegar à idade adulta. Os que superam essas dificuldades atingem a maturidade sexual aos seis anos de idade, dando início, então, à sua fase reprodutiva.
A sucuri amarela é protegida por lei que proíbe sua venda ilegal, mas o maior inimigo que ela enfrenta é o desmatamento que destrói as florestas em que vive e provoca alterações no regime hídrico dos rios, matando muitas delas pela seca e falta de abrigo. A exploração consciente dos recursos da floresta, com a exigência de certificação da madeira e extração legalizada dos produtos florestais, é uma das formas de proteção de seu habitat único e de todas as demais espécies que nele vivem.