Das cobras venenosas encontradas no Brasil, são as corais que têm o veneno mais letal, mas apesar disso provocam apenas 1% dos acidentes ofídicos. A liderança nessa estatística macabra pertence às jararacas (80% dos casos de picadas), porém cabe às cascáveis, que não são agressivas porque costumam fugir quando percebidas, a liderança entre as maiores matadoras, mesmo participando com apenas 8% no cômputo geral dos acidentados, porque o seu veneno causa graves problemas renais.
A cascavel pertence ao gênero Crotalus e habita as Américas. Ela pode ser descrita como uma cobra grossa com cabeça pequena, cujo tamanho máximo alcança cerca de 1,5m, em média. Sua cor é pardo-escura, tendo no dorso uma série de losangos que se alternam com outros dispostos lateralmente. Vive preferentemente em áreas pedregosas e abertas dos campos e regiões secas - evitando as florestas - e apesar de ser muito comum nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, não é encontrada no litoral nem na Amazônia. Seu ciclo reprodutivo ocorre no período que vai de novembro a fevereiro, e em cada um deles nascem entre 16 e 24 filhotes. Como são animais vivíparos, seus filhos nascem já inteiramente desenvolvidos, venenosos e capazes de iniciar uma vida inteiramente independente.
Como todas as serpentes, a cascavel tem hábitos noturnos, e assim sendo, durante o dia ela procura esconder-se em recantos, depressões e cupinzeiros arruinados, de onde sai tão logo se inicia o crepúsculo, em busca dos pequenos roedores que constituem sua dieta básica. Uma das características mais conhecidas dessa variedade de réptil é a cauda terminada em guizos formados por anéis córneos móveis, que produzem um som de chocalho quando ele, enfurecido, os faz vibrar, advertindo às pessoas e os outros animais, de que está pronto para atacar.
A maioria das cobras realiza a troca de pele por inteiro, numa única peça, mas por razões que ainda não foram perfeitamente esclarecidas pela ciência, a cascavel não faz isso completamente, deixando enrolada na cauda, na forma de um anel cinzento grosseiro, uma parte da que está sendo substituída. Com a passagem do tempo esses pedaços ressecados de pele vão formando os guizos que balançam quando o animal agita a cauda, produzindo, então, o som característico que o identifica mesmo junto aos que nunca o tenham ouvido. Ao contrário da crença popular, os guizos da cascavel, também chamada boicininga, não indicam a sua idade, ou seja, não existe correspondência entre os guizos e o número de anos de vida (doze guizos, doze anos), porque a sua troca de pele ocorre de duas a quatro vezes por ano, e em cada uma delas forma-se um novo anel.
Seu veneno é o mais poderoso de todos e se caracteriza pela dor local que provoca, pouco pronunciada mas de violenta ação geral no organismo, particularmente sobre o sistema nervoso, ocasionando, às vezes, paralisias e perturbações visuais que vão até a perda completa da visão. Apesar de toda essa virulência, pesquisas revelaram uma faculdade positiva no veneno da cascavel, pois uma substância nele encontrada pode se transformar em opção ao uso da morfina no tratamento de dores decorrentes do câncer. Os pesquisadores envolvidos no projeto já sintetizaram essa substância, cuja vantagem principal em relação à morfina é a de propiciar maior duração em seu efeito, além de não causar dependência.
As pesquisas relacionadas com o veneno da cascavel foram iniciadas na década de 1930 pelo médico Vital Brasil, fundador do Instituto Butantan. Ao tomar conhecimento de que nos Estados Unidos se estudava o efeito analgésico do veneno de serpentes do gênero naja, o cientista brasileiro propôs utilização semelhante para o da cascavel, argumentado que ele, assim como o da naja, também é neurotóxico, isto é, possui uma toxina que pode causar paralisia respiratória. Vital Brasil passou a diluir o veneno crotálico e enviar as ampolas para médicos do Brasil e do exterior, que aplicavam o conteúdo das mesmas em seus pacientes, obtendo como resultado a melhoria na dor, e em alguns casos, a regressão do próprio tumor. Infelizmente, esse trabalho foi interrompido, e reiniciado somente a partir da década de 1990 pelo grupo liderado por Yara Cury, ([email protected]), pesquisadora do Instituto Butantan.
Sobre as picadas de animais peçonhentos, nunca é demais lembrar que estes, quando picam o ser humano, inoculam no agredido o seu veneno, produzindo sintomas que variam de conformidade com algumas circunstâncias. Entre esses animais estão as cobras venenosas, os escorpiões, as aranhas, as centopéias, os marimbondos, as abelhas e outros. No que diz respeito às cobras, o tratamento contra a ação da substância tóxica por elas injetada através de suas presas, deve ser iniciado em até 30 minutos após a picada, levando-se (sempre que possível) a própria agressora, viva ou morta, para identificação, pois isso permitirá a aplicação do soro antiofídico específico. Além disso, não adotar, em nenhuma hipótese, qualquer das providências adiante relacionadas:
1 - Torniquete ou garrote.
2 - Cortar ou perfurar o local (ou próximo da) picada.
3 - Colocar folhas, pó de café ou qualquer substância que possa contaminar a ferida.
4 - Oferecer bebidas alcoólicas, querosene ou qualquer outro líquido tóxico.
5 - Fazer uso de qualquer prática caseira que possa retardar o atendimento médico.