FLOR DE OBSESSÃO (2)

- O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca.

 

- A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas nossas relações com o passado ficam alteradas.

 

- O amigo é um momento de eternidade.

 

- O asmático é o único que não trai.

 

- Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma.

 

- O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.

 

- O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro.

 

- Não admito censura nem de Jesus Cristo.

 

- Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.

 

- Deus só freqüenta as igrejas vazias.

 

- Copacabana vive, por semana, sete domingos.

 

- Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!

 

- A fome é mansa e casta. Quem não come não ama, nem odeia.

 

- Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um são Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.

 

- A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.

 

- No passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal.

 

- Não reparem que eu misture os tratamentos de "tu" e "você". Não acredito em brasileiro sem erro de concordância.

 

- Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.

 

- Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro.

 

- Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.


- O cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor, dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses.

 

- Não há ninguém mais vago, mais irrelevante, mais contínuo do que o ex-ministro.

 

- Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.

 

- O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.

 

- Enquanto um sábio negro não puder ser nosso embaixador em Paris, nós seremos o pré-Brasil.

 

- Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar.

 

- Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: não façam literatice. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra.

 

- Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos.

 

- Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.

 

- Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: — a nossa.

 

- Sexo é para operário.

 

- Morder é tara? Tara é não morder.

 

- Todo tímido é candidato a um crime sexual.

 

- Só há uma tosse admissível: — a nossa.

 

- Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.

 

- Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.