Cora Coralina - MINHA POESIA

Minha Poesia... Já era viva e eu, sequer nascida.

Veio escorrendo num veio longínquo de cascalho.

De pedra foi o meu berço.

De pedra tem sido meus caminhos.

Meus versos: pedras quebradas no rolar e

Bater de tantas pedras

Em torno, o abandono.

Aninha, a menina boba da casa.

 

Foi uma ex-escrava que me amamentou no

Seio fecundo.

Eram seus braços prazenteiros e generosos que

Me erguiam, ainda rastejante, e Aninha

Adormecia, ouvindo estórias de encantamento.

 

Minha madrinha Fada...

Eu era Aninha Borralheira.

Era ela que me tirava das cinzas e me calçava

Sapatinhos de cristal.

Me vestia. Me carregava na Procissão.

Eu dormia na cadeirinha de seus braços.

E sonhava que era um anjo de verdade

Aconchegada na nuvem macia de seu xale.

 

Toda melhor lembrança da minha pueria

Distante está ligada a essa antiga escrava.

 

No tarde da minha vida assento o seu nome

Na pedra rude do meu verso: Mãe Didi.


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