Olavo Bilac - LUAR, O

Insone, a moça Luísa

Salta do leito, em camisa.

Verão, verão de rachar.

Calor, calor que devora,

Luísa vai dormir fora,

Ao luar...

 

Ardente noite estrelada...

Entre as plantas, descansada,

Põe-se Luísa a roncar.

Dorme toda a natureza...

E que esplendor! Que beleza,

No luar...

 

Olha-a o luar com ciúmes.

E sobem vivos perfumes

Do jardim e do pomar:

E ela, em camisa, formosa,

Repousa, como uma rosa,

Ao luar...

 

Mas alguém (um fantasma ou gente?)

Chega-se prudentemente,

Para o seu sono espreitar.

Alguém que, ardendo em desejo,

Lhe põe nos lábios um beijo,

Ao luar...

 

Ela dorme... coitadinha,

Nem o perigo adivinha.

Pobre! A dormir e a sonhar,

Sente o beijo... Mas parece

Que é um beijo quente que desce,

Do luar...

 

A lua (dizem-no os sábios),

Também tem boca, tem lábios,

Lábios que sabem beijar.

Luísa dorme, em camisa,

Como é formosa a Luísa,

Ao luar...

 

Vão depois correndo os meses,

Entre risos e revezes

Começa a moça a engordar.

Vai engordando, engordando,

E chora, amaldiçoando,

O luar...

 

Já todo o povo murmura,

E na sua desventura,

Ela só sabe chorar.

Chora e diz que não sabia

Que tanto mal lhe faria,

O luar...

 

O pai, que é homem sisudo,

Homem que percebe tudo,

Pergunta-lhe a praguejar:

- Que é que tu tens, rapariga?

E ela: - Eu tenho na barriga,

O luar...


Deixe um comentário:

  

      

  

caracteres restantes.


Comentários:


Nenhum comentário.