Sentidos - AUDIÇÃO

As ondas sonoras produzidas ao redor dos seres vivos são uma das muitas fontes de estímulos que agem sobre eles, e é a partir desses estímulos (sonoros, táteis, visuais e outros), que o homem e outras espécies animais formam sua imagem do mundo. Essa capacidade de ouvir é utilizada por cada animal de maneira diferente. Para muitos, os estímulos sonoros servem de auxílio não só na prevenção de perigos como também para localizar a caça. O homem utiliza eventualmente a audição para fins semelhantes, mas para ele, essa capacidade de ouvir exerce papel fundamental na comunicação. A transmissão de idéias, vontades e necessidades mediante sons formados na laringe e nas cavidades da face, desenvolveu-se graças à existência da audição, ou seja, da capacidade de percepção desses estímulos sonoros.

 

A audição é função do órgão sensorial auditivo, que recebe as vibrações acústicas e as transforma em um tipo de energia conduzida ao cérebro. Essas tarefas são realizadas pelo conjunto de estruturas existentes no ouvido, com suas partes externa, média e interna.

 

O ouvido externo não tem papel importante na audição humana. É constituído pelo pavilhão auricular composto de cartilagens recobertas por pele e unidas por pequenos feixes de tecido fibroso, e pelo conduto auditivo externo, aberto para o exterior em uma extremidade e fechado pela membrana timpânica na outra, formando um tubo de parede cartilaginosa na parte mais externa, e óssea, na mais interna, recobertas por uma pele com glândulas sebáceas e ceruminosas. A tortuosidade e comprimento do conjunto (cerca de 2,5cm) protegem-no (bem como as partes mais internas do ouvido), de corpos estranhos e traumas. No pavilhão auricular há também músculos que devem ter sido muito mais desenvolvidos no homem primitivo. Esses músculos, como nos existentes hoje em felinos, eqüinos e outros animais, podiam deslocar o pavilhão para posições que facilitavam a recepção de sons e a localização de suas fontes.

 

O conduto auditivo externo atua como ressoador para ondas sonoras de freqüência próxima a 3.000 hertz. O tímpano limita o ouvido externo com o ouvido médio, que contém uma cadeia formada por três ossículos: martelo, bigorna e estribo, unidos entre si, em seqüência. A porção externa da cadeia (o martelo) está ligada à face interna da membrana timpânica, e a interna (o estribo), unida à janela oval além da qual está o ouvido interno. Esse conjunto (tímpano e cadeia auricular) tem por função fazer chegar ao ouvido interno a quantidade adequada de energia sonora, mas quando os sons são muito fortes, o ouvido médio protege as estruturas localizadas no ouvido interno pela contração do pequeno músculo do estribo e, possivelmente, do músculo tensor do tímpano. Isso provoca um enrijecimento do sistema, diminuindo a eficiência da transmissão, mas funciona de forma mais limitada contra sons e ruídos súbitos ou de duração prolongada.


O mecanismo da transmissão do som ao ouvido interno funciona bem quando a pressão aérea é a mesma dos dois lados da membrana timpânica, ou seja, no ouvido médio e no externo. Esse equilíbrio é mantido pela trompa de Eustáquio, um conduto que permite a passagem de ar desde a faringe até o ouvido médio. Quando a pressão do ar é maior no exterior do que dentro da cavidade que contém o conjunto de ossos (como ao baixar a altitude), uma deglutição reflexa ou voluntária provoca a abertura da trompa, a entrada de ar no ouvido médio e o restabelecimento do equilíbrio tensional.

 

O ouvido interno desempenha papel decisivo na audição, pois transforma as vibrações mecânicas dos sons em impulsos nervosos. Ele é formado basicamente por um conduto de paredes membranosas e conteúdo líquido. A formação membranosa apresenta duas dilatações: o sáculo e o utrícolo, de onde parte um canal enrolado em forma de caracol. Este ducto membranoso, preenchido por um líquido (a endolinfa), está contido em um estojo ósseo (que por acompanhar sua disposição no espaço assume a forma que lhe dá o nome: caracol, ou cóclea) contendo em seu interior o órgão de Corti, de pequenas dimensões, mas responsável pela recepção do estímulo vibratório e por sua transformação no estímulo eletroquímico desencadeador do impulso nervoso que caminhará até o cérebro. As vibrações oriundas do meio exterior diferem, conforme o som, quanto à freqüência e comprimento de onda, excitando as células do órgão de Corti em diferentes pontos do canal coclear. Graças a isso o homem consegue distinguir vários tipos de som, dos quais identifica cerca de 400.000.

 

Em situações comuns os sons não apresentam exatamente as mesmas características para um e outro ouvido. Há diferenças quanto ao momento e intensidade devido ao trajeto diferente realizado pelas ondas sonoras, o que auxilia na localização da fonte produtora, como demonstram as experiências que procuram estudar a reação de seres submetidos a estimulações sonoras, em termos de percepções e respostas. Essa particularidade também contribui para que os sons interessantes sejam separados pelo cérebro, dos ruídos de fundo ou pouco significativos para o ouvinte, o que pode ser exemplificado com uma conversação ao lado de uma pessoa que não a ouve até que uma palavra particularmente relevante seja pronunciada, despertando-lhe a atenção.

 

É freqüente associar-se a idéia de distúrbio auditivo com perda de capacidade para ouvir, ou seja, imagina-se que os problemas nesta área restringem-se ao fato das pessoas ouvirem, não ouvirem ou ouvirem pouco. As alterações da audição são causadas por lesões que, muitas vezes, produzem transtornos mais graves para a saúde do indivíduo, como no caso de tumores, infecções do ouvido médio, etc. As falhas auditivas, por sua vez, trazem conseqüências negativas, sobretudo para a realização cultural e integração social dos seus portadores. Quando uma deficiência auditiva bi-lateral e acentuada atinge o indivíduo antes que a linguagem tenha se desenvolvido, os efeitos são mais graves. Caso a perda da capacidade auditiva em maior ou menor grau de intensidade, de forma transitória ou definitiva, estacionária ou progressiva (disacusias) aconteça na idade adulta, ela trará conseqüências mais leves, embora a dificuldade de comunicação possa transformar as atividades sociais e profissionais dos sujeitos afetados, levando-os, por vezes, à introversão ou outras reações.


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