A a D - COM UNHAS E DENTES
O Auto da Barca do Purgatório é uma complexa alegoria dramática de Gil Vicente, um gênio da literatura portuguesa que viveu provavelmente entre os anos de 1465 e 1537. A peça, apresentada em 1518, corresponde à segunda parte da chamada trilogia das Barcas (a primeira e a terceira são, respectivamente, o Auto da Barca do Inferno e o Auto da Barca da Glória), e se desenvolve em um porto imaginário onde os personagens ficam na praia, expiando pequenas faltas até merecerem a glória. Um deles é o lavrador que se apresenta de arado nas costas, e cujas fadigas e sacrifícios evitam a sua condenação. A certa altura ele diz:
“Nós somos vida das gentes / e morte de nossas vidas; / a tiranos - pacientes, / que a unhas e dentes / nos tem as almas roídas!”.
Essa é uma das muitas menções feitas no passado sobre o uso das armas naturais dos humanos, que são as unhas e os dentes, na luta em favor ou contra alguma coisa. Uma outra, anterior à relembrada acima, está no poema didático Rerum Natura, de Tito Lucrécio Caio (96-55 a.C.), filósofo romano que procurava afastar dos seus leitores o medo da morte porque acreditava que ele estivesse relacionado com as superstições da religião popular. Um dos seus versos diz que “arma antiqua, manus, ungües, dentesque fuerunt”, ou seja, que as mãos, as unhas e os dentes eram armas antigas.
A época em que Lucrécio viveu foi um prolongamento daquela em que legiões de soldados romanos ampliavam de conquista em conquista - feitas à base de sangue e morte - o império do seu povo. Foi também a dos gladiadores, que durante sete séculos, no Coliseu ou em outros anfiteatros menores, lutavam entre si, ou contra animais ferozes, para divertir os apreciadores daquela sangueira danada, homens e mulheres que ao final de cada combate pediam com um movimento do polegar - para baixo ou para cima - o perdão ou a morte do lutador vencido. Na fase inicial desses espetáculos que ofereciam a sobrevivência como único troféu, os gladiadores eram recrutados entre os prisioneiros de guerra, escravos e autores de delitos graves, mas na época dos imperadores Claudius I, Caligula e Nero, a condenação à arena foi estendida às menores culpas, o que aumentou o interesse pelas lutas. Menos comum era um romano de alta posição social, mas arruinado, se alistar como gladiador a fim de garantir a própria subsistência, ainda que de maneira arriscada.
Bem antes dos romanos, a luta braço-a-braço era a forma como os homens resolviam suas pendências e desencontros, ou satisfaziam suas ambições maiores e menores. As armas, quando necessárias, eram simplesmente os paus e pedras fornecidos pela própria natureza, e por isso mesmo, brigava-se com unhas e dentes pela preservação ou conquista daquilo que cada um possuía ou pretendia para si mesmo. Consolidou-se, assim, o comportamento dos que entendiam não ser bastante pegar alguma coisa, sua convicção de que para não mais largá-la seria preciso fazer de tudo a fim de impedir que os outros a arrebatassem, usando-se, sempre que preciso, todos os meios à disposição de quem tivesse um problema desses pela frente. Por mais paradoxal que isso possa parecer, bons tempos aqueles, pois não havendo armas que pudessem disparar e matar, sem permitir defesa ao atirado, as desavenças eram resolvidas na base da cabeçada, da mãozada na ponta do nariz, do pontapé nas partes sensíveis do adversário, da unhada e da dentada, mantendo-se sempre em aberto, porém, o caminho da retirada a quem estivesse se saindo mal na parada. Talvez daí tenha surgido o aconselhamento de que mais vale ser um covarde vivo, do que um valente morto.
O tempo passou, a humanidade escalou degraus do conhecimento e chegou a patamares mais altos em sua evolução. Infelizmente, esse aprimoramento técnico e científico permite hoje a produção de armas cada vez mais perigosas, daquelas que não dão chance à vítima de mostrar pelo menos os dentes, quanto mais usá-los. E com essa nova e ameaçadora situação podendo nos surpreender em cada esquina, em cada sinal de trânsito, em cada toque da campainha da casa, a expressão “com unhas e dentes” acabou perdendo seu significado primitivo - o do uso guerreiro -, passando a ser aplicada somente nos casos em que algum indivíduo decidido usa sua energia tentando não ceder o posto que ocupa, não renunciar a seus propósitos, não abandonar suas idéias, mas isso com bons modos, sem arranhar ou morder a quem quer que seja, porque a recomendação das autoridades é a de que ninguém reaja aos que lhes querem surrupiar alguma coisa.
Mas tem gente que não pensa dessa forma. Alguns vão do oito ao oitenta, como no caso, por exemplo, de um especialista americano em defesa pessoal, cujas recomendações estão na Internet, à disposição de qualquer um. Para mudar esse estado de coisas, ele alerta e sugere que:
- O senhor pode ser morto ou espancado (duramente), com certeza .
- Podem usar armas contra o senhor, fazendo-o sangrar (lembre-se, a sangria não significa morte certa, e sim que o senhor foi ferido).
- O senhor deve familiarizar se com todo nível de combate – isto é absoluto!
- Para isso, deve aprender como lutar em qualquer situação, contra todo tipo de agressor. Pode parecer um exagero, mas essa é a única maneira de preparar-se para qualquer eventualidade. Conheça as armas de fogo, as armas cortantes e contundentes, os diferentes métodos de golpes e de luta corpo-a-corpo. Aí então o senhor estará preparado para enfrentar a violência.
Diante disso, só resta dizer que não demora muito, para continuar vivendo cada um de nós vai precisar ser diplomado na academia do Rambo.





