A a D - CUSPIDO E ESCARRADO
A cidade de Carrara foi construída perto do mar Mediterrâneo, na região de Toscana, centro da Itália, situada num vale circundado por montes de mármore de primeiríssima qualidade que deram a ela a celebridade de que desfruta. Sua atividade principal é a extração dessa pedra calcária considerada como a mais branca e pura do país, e foi essa a razão que determinou a instalação de uma famosa academia de escultura no lugar. Tal fato induziu festejados escultores do passado a fixarem residência na localidade, mas isso também se deveu não apenas à facilidade com que a matéria-prima em que trabalhavam podia ser adquirida, mas principalmente porque as variedades mais valiosas da pedra lhes eram oferecidas a um preço muito baixo.
Foi no início da fase mais brilhante do período renascentista que o pintor, escultor e arquiteto italiano Miguel Ângelo, ou Michelangelo (1475-1564), então com pouco mais de dez anos de idade, tornou-se aprendiz do pintor Ghirlandalo, iniciando nessa mesma época o estudo das esculturas clássicas em mármore que integravam a coleção de seu compatriota Lourenço de Médici, um estadista florentino protetor das artes e da literatura. Alguns anos depois, entre 1496 e 1501, o artista concluiu seus primeiros trabalhos com o mesmo material, entre eles as obras denominadas Madonna della Scalla, Batalha dos Centauros, Baco e Cupido, além da Pietá de San Pietro, talvez a mais importante de todas elas. Em 13 de setembro de 1501 Michelangelo começou a trabalhar no grande Davi, aproveitando bloco de mármore abandonado por outro escultor e colocado diante do Palácio da Comuna, em Florença, ao qual se seguiram outros projetos, sendo o último deles a Pietá, destinada ao próprio túmulo mas não aproveitada no monumento erguido em Santa Crice, como homenagem à sua memória.
Registros feitos sobre o mármore branco de Carrara revelam que durante séculos os métodos antigos de extração de rocha basicamente não sofreram nenhuma alteração. Cunhas de madeira eram inseridas estrategicamente em fendas naturais ou encaixes entalhados na rocha, e quando se derramava água nas cunhas elas dilatavam e por fim soltavam um bloco de pedra. Mais tarde, experiências feitas com explosivos não deram certo e foram abandonadas porque eles fragmentavam a rocha de tal forma que, quando muito, apenas um terço dela podia ser aproveitado. Outro problema era o transporte feito morro abaixo, em trenós e cordas, das pedras de grandes dimensões, uma operação muito arriscada porque, na explicação de certa fonte “se o cabo que segurava o trenó se rompesse, era morte certa para o líder da equipe que conduzia as operações em pé, na frente do bloco. E qualquer um que fosse atingido pelo cabo - com a força de uma terrível chicotada - tinha pouca chance de escapar vivo”. É claro que os métodos modernos são bem diferentes.
Descrevendo visita feita às pedreiras, um jornalista revela que ele e seu guia embarcaram em um carro cujo motorista os levou a um vale estreito na montanha. Durante o percurso, o repórter viu caminhões que desciam o morro com dificuldade, levando enormes blocos de pedra de até 30 toneladas, e surpreendeu-se quando chegaram a um enorme paredão branco composto de uma série de degraus gigantescos, ou plataformas, cada uma com 6 a 9 metros de altura. Em seu texto o jornalista declara que “paramos o carro sobre uma delas, e uma olhada em volta mostra que estamos numa das muitas pedreiras do vale, onde mais paredões brancos, alguns deles centenas de metros acima de nós, se sobressaem na superfície rochosa natural. É um ‘espetáculo’ que com razão tem sido descrito como ‘majestoso, porém assustador’. Minha reflexão é interrompida por uma escavadeira que usa uma ferramenta pontiaguda para virar uma parte de nossa plataforma, um bloco perfeitamente esquadrado, medindo cerca de 11 metros de comprimento por 2 de largura e 6 de altura, que tomba numa camada de cascalho preparada para amortecer sua queda. Mas como é possível remover a rocha em blocos?”.
Ele explica: “Franco, pai de nosso guia, que por toda a vida tem trabalhado nas pedreiras, fornece a resposta. Ele me mostra uma polia que impulsiona um cabo de aço comprido, o qual faz um corte vertical no paredão atrás da plataforma onde estamos, e diz que primeiro usa-se uma broca para fazer um furo de 8 centímetros em sentido horizontal na superfície da rocha e outro em sentido vertical na plataforma de cima. Os dois furos precisam se cruzar. O cabo de aço cravejado de diamantes é então enfiado nos furos, formando um laço como se fosse um colar gigante. Esticado e impulsionado em alta velocidade por um motor elétrico, o cabo faz o corte desejado. Quando todas as superfícies da rocha — horizontais e verticais — são cortadas, a rocha é virada. Então, com o mesmo cabo, ela é cortada em pedaços menores, mais fáceis de transportar. Métodos similares são usados em pedreiras subterrâneas nas redondezas, onde o mármore é extraído de câmaras profundas no interior dessas montanhas”.
Quase todas as esculturas de Michelangelo foram lavradas em mármore de Carrara, o que permitiu que a perfeição do trabalho por ele desenvolvido se tornasse ainda mais evidente graças à qualidade superior da pedra que empregava. Daí surgiu a expressão “esculpida em carrara”, como referência quase obrigatória às obras do artista, mas o passar do tempo e o uso popular acabaram por transformar a expressão em um simples "cuspido e escarrado", como forma de se explicar a semelhança existente entre uma pessoa e outra.






Legal. Eu já havia lido da seguinte forma: Calcado e esculpido, para demonstrar a real semelhança, como já ouvi \" Cagado e cuspido\" como diziam os nossos avós.