A a D - CUSPIR NO PRATO ONDE COMEU
José Pereira da Graça Aranha (1868-1931), nascido em São Luiz, Maranhão, formou-se aos dezoito anos de idade pela Faculdade de Direito de Recife. Foi juiz de direito, procurador da República, advogado, professor de Direito, secretário na missão de arbitramento dos limites entre Brasil e Guiana Inglesa, ministro na Noruega e Holanda, membro fundador da Academia Brasileira de Letras e autor de inúmeras obras, entre as quais o romance Canaã, em 1902; Pedro Malasarte, em 1910; Estética da Vida, em 1920; O Espírito Moderno, em 1925; e A Viagem Maravilhosa, em 1930.
Entre seus companheiros na Academia Brasileira de Letras estava Henrique Maximiliano Coelho Neto (1864-1934), também maranhense da cidade de Caxias, bacharel em Ciências e Letras pelo Colégio D. Pedro II, aluno da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que trocou pela Faculdade de Direito de São Paulo e depois abandonou em virtude de um incidente acadêmico. Retornando ao Rio de Janeiro, Coelho Neto passou a trabalhar na redação do jornal Gazeta da Tarde, onde defendeu as idéias abolicionistas e republicanas. Em 1891 ele publicou sua primeira obra, Rapsódias, contos, à qual se seguiu A Capital Federal, em 1883. Daí em diante não deixou de publicar anualmente um ou dois volumes de sua autoria (escreveu mais de 100 livros e cerca de 650 contos), o que lhe deu motivo para gabar-se de que sempre vivera de sua pena.
Em 1920 o escritor Graça Aranha atravessava uma fase de transição por ele classificada como de evolução espiritual, e isso o levou a bater de frente com o estilo acadêmico que predominava entre os intelectuais brasileiros, fazendo-o adotar uma posição de rebeldia contras as formas tradicionais de expressão, o que viria depois a exercer influência decisiva na evolução da literatura no Brasil. Mas esse tipo de comportamento não deixou de provocar atritos e lhe causar contrariedades. Em certa oportunidade Graça Aranha afirmou que "a fundação da academia foi um equívoco e um erro", com o que Coelho Neto não concordou, tanto que retrucou: "Vossa Excelência está cuspindo no prato onde comeu". A expressou pegou, e a prova disso é que volta e meia está sendo usada por quem acha que alguém se transformou num mal-agradecido ao esquecer a ajuda, o apoio ou o incentivo recebido de terceiros, em algum momento da vida.
Em 1997, ano em que se comemorou o centenário de criação da Academia Brasileira de Letras, o acadêmico Josué Montello escreveu um longo texto sobre a importância da instituição a que pertencia, do qual transcrevemos os parágrafos iniciais:
A idéia da criação de uma Academia de Letras no Brasil, nos moldes da Academia Francesa, não teve a inspirá-la o espírito de iniciativa daquele que seria, como seu primeiro presidente, o principal responsável pela sobrevivência e pelo prestígio do novo instituto. Com efeito, não se pode incluir Machado de Assis entre os idealizadores da Academia. Este papel cabe, em épocas diferentes, a Medeiros e Albuquerque e a Lúcio de Mendonça. Entretanto, pode-se afirmar, com segurança, que, sem a figura de Machado de Assis, a idéia não se teria concretizado. As origens da Academia Francesa, no dizer de Voltaire, não foram de ordem intelectual e sim de ordem cordial, como um círculo de bons amigos. Os requisitos de ordem intelectual vieram depois, no aprimoramento gradativo da corporação, sem que esta perdesse, no entanto, na escolha de seus novos membros, o sentido da cordialidade que inspirou a formação do pequeno cenáculo em casa de Valentin Conrart.
Nossa Academia, bem examinada nas suas origens, constituiu-se também sob a inspiração da afinidade de sentimentos. Não constituirá exagero afirmar que, sob certos aspectos, no que concerne às suas raízes, ela decorre mais da geração boêmia que fez a Abolição do que do grupo de altos espíritos que moldou a consolidação legislativa de seus estatutos. Graça Aranha, testemunha do nascimento da Academia, disse que ela, “oriunda de um pacto entre espíritos amigos, hauriu nesta inspiração original a força intrínseca de que se mantém, e se vai transmitindo às gerações que se sucedem”.
Ao contrário do que ocorre na Academia Francesa, sempre pendente de algumas vontades firmes que orientam as deliberações do instituto, nossa Academia habituou-se a prescindir dessas vontades individuais, que não se compaginam com as tradições da Casa. Há ali quarenta companheiros, comumente identificados no gosto das boas letras, sem chefes de grupos nem líderes evidentes.





