A a D - CUSTAR OS OLHOS DA CARA

Entre os órgãos dos sentidos, o olho é o que nos fornece o maior  número de informações a respeito do mundo exterior. Por meio dele distinguimos a forma, a cor, a aparência, movimento e distância dos objetos, mas o mesmo não acontece com todos os animais: a maioria dos vertebrados utiliza muito mais seus outros sistemas de percepção e reconhecimento, como a audição e o olfato, por exemplo.

 

Para que se possa ver é necessário que três estruturas estejam íntegras: os olhos, as vias nervosas (nervo óptico) e o córtex visual cerebral. Daí que a cegueira, ou supressão da função da visão, pode ser provocada por diferentes causas. Uma delas foi praticada como castigo, mas não apenas pelos povos orientais: os gregos também a impunham aos sacrílegos e aos adúlteros, enquanto as tribos germânicas aplicavam-na aos perjuros, traidores e falsificadores de moedas. Entre os bizantinos, era esse o castigo  imposto aos agitadores políticos e indivíduos perigosos, e na Espanha, aos traidores e aos rebeldes. A cegueira, como penalidade, era infligida pondo-se diante dos olhos do condenado uma barra de ferro aquecida até ficar em brasa, ou queimando-lhe com ferro o globo ocular. E também os extraindo por incisão ou com os dedos, como se fazia em Bizâncio, império romano do Oriente.

 

As tradições, lendas e registros históricos guardaram o nome de personagens célebres que foram punidos com a perda dos olhos. Como Sansão, figura bíblica cujas proezas e lutas contra os filisteus, inimigos hereditários do seu povo, são narradas no Livro dos Juízes. Ele revelou a Dalila que o segredo de sua força estava nos longos cabelos que possuía, e por isso ela os cortou enquanto ele dormia, permitindo que os filisteus o aprisionassem e cegassem, acorrentando-o depois no interior do templo. Mas na medida em que seus cabelos cresciam ele recuperava as forças, e por fim destruiu o local onde estava preso, matando seus inimigos e perecendo com eles. Na mitologia grega, Édipo arrancou seus olhos ao descobrir que havia matado o pai e desposado a própria mãe, enquanto a história do cristianismo registra que Santa Luzia fez a mesma coisa, só que para manter a sua virgindade.

 

Assim, de punição ou prevenção - porque o ato de cegar o adversário também visava impedir que no futuro ele se transformasse em ameaça -, a expressão "custar os olhos da cara" veio amenizando o seu sentido durante a passagem do tempo, até  se transformar em frase indicadora de que o preço cobrado por alguma coisa está nas alturas, aonde, infelizmente, não conseguem chegar os números de nossas estatísticas oficiais sobre o custo de vida.  Mas a tortura física ou moral, procedimento abominável que por motivos diferentes continua sendo praticada em determinados países do mundo, merece, como sempre, a condenação de todos povos, que tem sido manifestada através das mais variadas formas de expressão. Uma delas é o poema “Estigma”, de Márcio Catunda:

 

Por mais que te desdobres em controles, / inspeções, suspeitas, ameaças, espionagens, / não poderás apagar o estigma. / Por mais que exerças arbítrio sobre os excluídos, / submetidos, algemados, / não poderás apagar o estigma. / Por mais que argumentes com estratégias, / calcomanias, supremacias, invulnerabilidades, / agressões, transgressões e desvarios, / não poderás apagar o estigma. / Por mais que espanques, abuses, violentes, esfoles, / que apliques choques elétricos, / que arranques unhas e olhos, / que globalizes a intolerância e a hemorragia, / não poderás apagar o estigma. / Por mais que proliferes feras, pragas, dragões, /  por mais que multipliques espadas de fogo, / tentáculos, abominações, garras de fúria e mentiras, / nunca poderás apagar o estigma.


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