Doenças - DOENÇA DE CHAGAS

Em 1908, quando se ocupava da profilaxia da malária entre os trabalhadores de estrada de ferro no norte de Minas Gerais, o médico Carlos Justiniano Ribeiro das Chagas (1879-1934) teve sua atenção despertada para um inseto – conhecido por barbeiro, ou chupança – que infestava as casas de pau-a-pique dos empregados da ferrovia. Como sugador de sangue (hematófago), ele parecia ser um potencial transmissor de doenças.

 

Essa hipótese foi confirmada pelo exame do estômago do barbeiro (Triatoma infestans), onde foram encontradas formas evolutivas de tripanossomas, protozoários (animais unicelulares) que parasitam a mosca tsé-tsé e vários mamíferos, incluindo o homem. Supondo que os insetos eram intermediários de um tripanossoma parasito dos vertebrados, Carlos Chagas solicitou do médico Osvaldo Cruz a realização de experiências de laboratório, utilizando alguns sagüis como cobaias para as picadas: ao final dos testes, o exame dos sagüis permitiu a descrição de um novo agente infectante, o Schizotrypanum cruzi, atualmente denominado Trypanosoma cruzi. Fora uma experiência inédita em medicina, pois o processo de pesquisa seguira caminho inverso ao habitual: através do parasito e seu hospedeiro, é que se chegou ao reconhecimento de uma nova doença.

 

Restava descobrir o hospedeiro definitivo do tripanossoma. Carlos Chagas investigou os homens e animais que viviam nas casas infestadas pelo inseto, e logo a busca chegou a bons resultados: localizou um gato, depois uma menina (Berenice), que apresentavam no sangue o mesmo parasito encontrado nos sagüis utilizados na experiência do laboratório. O cientista comprovava, com isso, a existência de uma nova tripanossomíase humana, que ficaria mundialmente conhecida como a doença de Chagas. Ela só existe nas Américas, desde o sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina. Nessa área, a região amazônica é a única onde não há incidência do mal em seres humanos, apesar de ser encontrado em diversos animais selvagens.

 

Os transmissores são insetos hematófagos que têm seu habitat preferencial nas frestas das casas de pau-a-pique, entre os pedaços de barro ou entre as taquaras das paredes. Na América do Sul, o principal desses insetos é o Triatoma infestans, mas há outros, como o Panstrongylus megistus, o Triatoma brasiliensis e o Triatoma sórdida. Eles têm certa preferência pela musculatura cardíaca: aí se alojam e acabam por destruir muitas fibras do coração. Este, enfraquecido pela doença, tenta readquirir sua capacidade de trabalho de várias maneiras: contraindo-se um maior número de vezes por minuto (taquicardia); engrossando o diâmetro das fibras sadias (hipertrofia); ou aumentando o volume de suas cavidades (dilatação). Mas com o passar do tempo ele se enfraquece e sobrevém, então, a insuficiência cardíaca.

 

O coração chagásico é bem maior que o normal, e suas paredes são muito espessas. Elas sofrem diversas lesões - como inflamações, pequenas hemorragias, obstruções por coágulos sangüíneos, enfartes - ocorrendo, ainda, a formação de áreas fibrosas provocadas pela cicatrização de antigas lesões. Em outros casos, os parasitos exercem ação primária sobre o feixe nervoso condutor do coração, alterando seu funcionamento e provocando arritmias cardíacas, ou mesmo bloqueando-a, o que pode resultar numa súbita parada cardíaca.

 

Em www.fundep.ufmg.br  a Fundep – Fundação de Desenvolvimento da Pesquisas, esclarece que

 

“A doença de Chagas é uma doença de alta incidência em toda América Latina. Existem mais de 130 espécies de barbeiros, os insetos que funcionam como transmissores do parasita que provoca a doença. Cada região apresenta uma, ou mais, espécies típicas de barbeiro, mas todos têm a mesma característica, que é se alimentar de sangue e defecar durante a alimentação. O parasita, Trypanosoma cruzi, é transmitido através das fezes do barbeiro, que entram em contato com a ferida e com a pele. A principal forma de transmissão do parasita, que só se desenvolve em mamíferos é através do barbeiro”.

 

“O parasita ataca os tecidos de órgãos como o coração e o intestino e provoca lesões. Como não há cura, a principal maneira de evitar a doença é controlando os barbeiros que entram dentro de casa. Esse trabalho, chamado de 'Vigilância entomológica', deve ser feito pelas Secretarias de Saúde, que enviam pessoas qualificadas para fazer vistorias nas casa e eliminar os focos do inseto. O problema é que os barbeiros evitam luz e se escondem em lugares difíceis de serem descobertos. Além disso, quando o número de insetos é muito pequeno em um local, torna-se difícil de encontrar focos da doença” (na ilustração, o T. cruzi na corrente sanguínea visto ao microscópio eletrônico).

 

Continuando, a instituição explica o seguinte:

 

“Os barbeiros utilizam alguns recursos para se orientarem e conseguirem alimento: O calor do corpo humano (radiação infravermelha); o CO2 que é exalado quando respiramos, e que funciona como uma pista de que existem fontes de sangue por perto; e através dos odores que são emitidos pela nossa pele. Outra característica do comportamento dos barbeiros é a marcação química dos abrigos, através das fezes. Os insetos defecam em seus locais de descanso. Segundo o professor Marcelo Lorenzo as fezes secas do barbeiro são um atrativo aos próprios barbeiros, pois representam a presença de um abrigo e representam a presença de outros barbeiros, que podem ser parceiros sexuais e fornecedores de simbiontes (bactérias que fornecem uma vitamina fundamental para o crescimento dos barbeiros, a vitamina B)”.

 

 

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