A a D - DE FECHAR O COMÉRCIO

A beleza deve ser entendida como sendo a harmonia de proporções, a perfeição de formas, a mulher bela, a qualidade do que é agradável à vista ou ao ouvido, o que desperta admiração, o tipo de perfeição física, ou algo bonito e extremamente satisfatório, mas todos esses conceitos são elásticos porque dependem fundamentalmente do gosto ou da preferência de cada um. Ou seja, a moça da ilustração ao lado certamente será admirada por muitos, mas outros tantos a prefeririam “cheínha” de corpo, loura, ou com certos detalhes anatômicos mais acentuados. Daí se dizer que como gosto é gosto, essas coisas não se discutem.

 

Por isso mesmo, existem padrões diferentes de beleza feminina, seja nos cabelos de cores, comprimento e cortes variados, lisos ou ondulados; no tamanho e forma de nádegas, nos seios mais ou menos salientes, nos ombros e coxas que atendem a todas as predileções, e assim por diante. Não existem medidas perfeitas, exatas, irretocáveis, e sim medidas que são adequadas a cada tipo e a cada caso; não existem mais tabelas de peso a serem rigorosamente obedecidas, e sim limites de massa corpórea que impõem regimes e dietas; da mesma forma como não mais existe necessidade de uma pessoa de etnia caucasiana padecer para ganhar a aparência de morena da cor do pecado, porque o “pecado” também pode ser branco, amarelo ou negro.

 

Falando sobre esse tema controverso, alguém já disse que as mulheres bonitas são de parar o trânsito, de fechar o comércio, de tirar o fôlego; um colírio para os olhos, pedaços de mau caminho que estonteiam a todos por onde passam. E descrevendo uma delas, pintava-a com suas longas madeixas negras fazendo par perfeito com a brancura leitosa de sua pele; com seus olhos de um azul profundo brilhando como se a luz do Sol tivesse sido concentrada em dois pequenos pontos em sua face; com seu desejado corpo ao mesmo tempo curvo e retilíneo, fascinando e despertando ciúme nas menos aquinhoadas pela natureza. Por onde andava, as cabeças se viravam automaticamente acompanhando a cadência dos seus passos, enquanto comentários eram feitos em surdina, corações suspiravam inconformados. Alvo da cobiça dos homens e da inveja das mulheres, era como se todos os clichês sobre beleza tivessem sido escritos pensando nela.

 

Embora seja usada em diversas situações para exprimir a aprovação de alguém em relação a alguma coisa, a expressão “de fechar o comércio” está ligada intrinsecamente à figura da mulher, e surgiu ninguém sabe dizer quando, nem de que forma. Provavelmente nos tempos da “bossa nova”, época em que os letristas da música popular brasileira descreviam a graça feminina com delicadeza e sensibilidade, coisa que só os versos bem construídos são capazes de mostrar. Como fez Vinícius de Morais na internacionalmente famosa “Garota de Ipanema”, com música de Tom Jobim:  “Olha, que coisa mais linda, / Mais cheia de graça, / É ela, menina, que vem e que passa, / Num doce balanço, a caminho do mar. / Moça do corpo dourado, / Do sol de Ipanema, / O seu balançado / É mais que um poema / É a coisa mais linda .Que eu já vi passar”.  Ou ainda como o mesmo inspirado poeta definiu em uma única frase: “As feias que me desculpem, mas a beleza é fundamental”.

 

Por isso a expressão “de fechar o comércio” diz tudo, pois não há quem não pare o que está fazendo para admirar a mulher que passa bamboleando ao seu lado; seguindo-a depois com os olhos ávidos e o desejo no coração afogueado; medindo-a palmo a palmo em pensamento e construindo na imaginação imagens proibidas que mais ninguém, a não ser ele, pode ver; sufocando a ânsia de sentir nas mãos o calor de sua pele, mesmo que só por alguns instantes; até vê-la sumir de vista mais adiante, escondida pelos passantes, mas deixando atrás de si a certeza de que quando a natureza acerta a mão, minha gente, o jeito é ter mesmo inveja do privilegiado dono de tamanha sorte grande.

 

Infelizmente, porém, nos últimos tempos a frase vem perdendo paulatinamente a sua originalidade, tanto que faltando seis dias para a eleição de outubro (2006), uma onda de ameaças e boatos atribuída a traficantes de drogas provocou o fechamento do comércio, de escolas e de agências bancárias em pelo menos 36 bairros de todas as regiões do Rio de Janeiro, incluindo Ipanema e Botafogo, na zona sul, Rio Comprido, Tijuca e o entorno de várias favelas da zona norte, como o complexo do Alemão. O que é uma pena, porque não há entre a gente de boa vontade quem não prefira o antigo significado da expressão, ao invés do “fechar o comércio” ordenado por bandidos e malfeitores. Afinal de contas, beleza não é um adorno, mas sim uma necessidade fundamental da vida.

 

 

Deixe um comentário:

  

      

  

caracteres restantes.


Comentários:


Nenhum comentário.