A a D - DE LAMBER OS DEDOS
Cerca de 600 a.C. o costume de nossos antepassados era o de usar as próprias mãos na hora das refeições, ou então cada um se servir dos alimentos usando as facas pontudas e afiadas que carregavam consigo. Ou seja: todos se viravam como podiam, porque o mais importante era o indivíduo garantir o seu pedaço de carne antes que qualquer outro esfomeado se apoderasse dele. Essa situação perdurou durante longo tempo, tanto que no século 9 da nossa era, o garfo ainda era uma peça considerada profana pelos padres venezianos, que justificavam essa condenação advertindo de que se Deus havia dado os dedos das mãos aos homens, estes deveriam usá-los em todos os momentos possíveis, principalmente na hora de comer.
Foi somente a partir do século 11, quando famílias italianas principiaram a usar garfos para comer as frutas que poderiam lhes manchar os dedos e as roupas, que o antigo hábito começou a dar sinais de que poderia ser mudado. No final da década de 1450, os garfos passaram a substituir as facas na hora das refeições porque o refinamento dos hábitos e maneiras introduzidos pelo Renascimento na Europa da Idade Média, produziu uma acentuada alteração no comportamento das famílias nobres ou abastadas. Na França do rei Henrique III (1551-1589), os garfos que antes eram usados coletivamente pelos que se sentavam a uma mesma mesa, passaram a ser de uso individual, o que contribuiu para que um número cada vez maior de pessoas se animasse a usá-los, e isso acabou por levar o utensílio à maioria das mesas européias.
Como se observa, o ato de lamber os dedos prazerosamente, conseqüência de se comer com as mãos, é um dos gestos mais primitivos e autênticos no comportamento espontâneo das pessoas, porque além de trazer embutido o desejo de prolongar o sabor dos alimentos em seus derradeiros vestígios, simboliza também a aprovação dada às coisas deliciosas, agradáveis e bem-feitas que se acabou de ingerir. Esse procedimento acompanhou o homem durante quase toda a sua existência, e se deixou de ser praticado abertamente foi porque novas regras de boas maneiras passaram a impedir que o indivíduo continuasse procedendo naturalmente ao se alimentar, colocando-o na complicada situação de usar garfo e faca para saborear uma apetitosa coxa de frango.
Registros históricos revelam que quando Napoleão III (1808-1873), imperador francês de 1852 a 1870, hospedou o xá da Pérsia, Nars-ed-Din, em seu palácio, e o viu pegar os alimentos com os dedos, ofereceu-lhe um garfo de ouro, mas o soberano oriental o recusou, justificando: “Vós não sabeis de que prazer está se privando”. Também dizem que o Barão do Rio Branco considerava sem gosto o abacaxi cortado a garfo e faca, e que não faz tanto tempo muito se falava sobre a decadência do sabor de certas iguarias, quando não comidas com o auxílio dos dedos. Já entre os gaúchos não se recomenda o uso de garfo e faca em um bom churrasco, o que provavelmente explica o ensinamento de quem sabe das coisas: Costela? Unhas a ela!
A expressão “de lamber os dedos”, deu origem à “de lamber os beiços”, uma outra locução assemelhada, e traduz aprovação ao alimento que é bom e saboroso porque esse procedimento demonstra o desejo de alguém em prolongar o sabor no aproveitamento dos últimos vestígios do que foi considerado delicioso e bem-feito.





