A a D - DISPUTAR A NEGRA
Certamente não existe no Brasil quem desconheça o sentido dessa expressão, empregada em diversos segmentos de atividade para nomear a forma como usualmente são decididas as disputas que apresentam, ao seu término, dois competidores em igualdade de condições. Seja no campo esportivo ou no de divertimentos, no de jogos simples como par ou impar, de palitinhos, ou porrinha, sinuca, ou jogos de azar como buraco, escopa, truco e outros mais, a disputa da negra tem sempre sua hora e vez de ser realizada quando a série melhor de três, ou de cinco, normalmente usada para definir o impasse, também não consegue apontar um vencedor. Não há quem não conheça esse sistema.
Nos campeonatos de vôlei, por exemplo, onde os jogos podem ser disputados em três e cinco sets, ou partidas, é declarado vencedor quem conseguir pontuar 2x0, ou 3x1, respectivamente. Mas se a contagem ficar em 1x1, ou 2x2, então uma terceira partida, no caso a negra, será necessária para apontar o ganhador, embora hoje em dia os praticantes desse esporte prefiram chamá-la de tie-break. No tênis acontece a mesma coisa, só que essa modalidade esportiva possui um sistema de pontuação que a subdivide em games, ou jogos (cuja contagem de pontos é de 15-30-40-game), e sets, ou partidas (que engloba os games vencidos: 1-2-3-4-5-6-set). Ganha o jogo quem atingir um número de sets previamente definido, geralmente 2, sendo 3 sets para os grandes torneios masculinos. Registrando-se empate, os jogadores disputam então a negra, ou game especial de desempate, com contagem a partir do número 1: Ganha quem primeiro chegar a 7, mas em caso de empate no 6 a 6, a disputa vai a 8; 7 a 7 vai a 9; 8 a 8 vai a 10 e assim por diante.
Registre-se, como curiosidade, a informação inserida no site Tênisbrasil, de que o tie-break mais longo da história do tênis durou 1h47, apesar do placar de 13 a 11. Isso aconteceu em 1984, no segundo set da partida disputada entre Vicki Nelson-Dunbar e Jean Hepner, na primeira rodada do torneio de Richmond, Estados Unidos. Um único ponto desse tie-break levou cerca de 29 minutos para ser concretizado, durante os quais a bola cruzou a rede por 643 vezes. Nelson-Dunbar ganhou por 6/4 e 7/6.
Ao que tudo indica a expressão disputar a negra tem suas raízes nos primeiros tempos do colonialismo no Brasil, quando a implantação dos primeiros engenhos de açúcar no nordeste fez surgir a necessidade da mão de obra africana. Apesar de Duarte Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, solicitar do rei de Portugal, em 1539, licença para comprar alguns escravos da Guiné, foi somente em 1550 que chegaram à cidade de Salvador os primeiros escravos africanos. Mas bastaram nove anos, apenas, para que essa importação se tornasse sistemática mediante um alvará real que concedeu a cada senhor de engenho o direito de adquirir 120 negros, pagando um terço do seu valor como imposto de importação. Eles foram, então, trazidos em massa para a colônia portuguesa, a fim de trabalhar nos engenhos de açúcar, e mais tarde, nas plantações de fumo, algodão e café. Já em 1587 avalia-se que eram 4.000 os negros existentes na Bahia, ao passo que os europeus eram apenas 2.000. Mais adiante, a mineração de ouro e diamantes, em Minas Gerais, absorveu enorme quantidade de escravos africanos. Em 1717, eles já eram 33.000. Em 1786, para uma população de 362.847 habitantes, Minas Gerais possuía 274.135 escravos, entre negros e mulatos. Esse número chegaria a 2 milhões e meio em 1850, declinando daí para frente, com a extinção do tráfico.
Nas fazendas de cana ou nas minas de ouro (a partir do século 18), os escravos eram tratados da pior forma possível. Trabalhavam muito, eram castigados severamente por qualquer motivo, recebiam apenas trapos de roupa e uma alimentação de péssima qualidade, no máximo duas vezes por dia, dormiam nas senzalas, que eram galpões escuros, úmidos e com pouca higiene, e ainda por cima acorrentados, para evitar fugas. Também era comum os fazendeiros ou seus filhos terem filhos com escravas, originando-se daí grande parte da população mestiça brasileira, os pardos, como eram chamados na época.
Apesar do tratamento desumano que recebiam, os negros tinham valor pecuniário, ou seja, valiam dinheiro, e a expressão disputar a negra serve como testemunho disso. A revista Superinteressante publicou em sua edição de maio de 2002, texto de Fábio Koleski intitulado “Por que chamam de ‘negra’ a partida de desempate?”. Dizia esse trabalho que:
“Pouca gente sabe, mas essa é uma das expressões mais politicamente incorretas da língua portuguesa! Sua origem remonta à época da escravatura, que, no Brasil, durou até 1888. "Era comum entre os senhores de escravos, quando se reuniam para disputar algum jogo, adotar como premiação a posse de uma escrava. Por isso, eles diziam estar ‘disputando a negra’, afirma o etimólogo Deonísio da Silva, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Consta que os feitores responsáveis por castigar escravos também promoviam algum tipo de competição para ter o privilégio de punir as mulheres mais atraentes, com a intenção de usá-las sexualmente. Isso também teria contribuído para a expressão se disseminar pelo país, até se tornar popular não apenas no futebol, na primeira metade do século XX, como em todos os outros jogos e esportes.
Mas existe uma outra hipótese, segundo a qual a frase teria vindo de Portugal, onde os aristocratas usariam como prêmio, também em competições, um valioso vinho bem escuro. Nesse caso, a ‘negra’ seria a garrafa dessa bebida, diz Deonísio”.
Na ilustração acima, reprodução da tela denominada Negra, de Marie Guillemine Benoist (1768-1826).





