N a Q - POMO DA DISCÓRDIA
Antes de tudo é preciso esclarecer que a palavra “pomo” significa qualquer fruto arredondado e carnudo, como a pêra, a laranja e a maçã, por exemplo, daí a menção feita na Bíblia sobre o pomo proibido, fruto que Adão e Eva não podiam comer porque assim Deus o ordenara. Ela é derivada de Pomona, deusa etrusca da primavera e divindade que protegia os frutos e os jardins, representada pelos que a cultuavam com as feições de uma jovem de grande beleza, tendo a seus pés diversas espécies de frutos. Os etruscos pertenciam a um povo de grandes dotes artísticos, habitantes da parte central da Itália e que até 500 a.C. constituÍram o Estado mais poderoso da península itálica.
Segundo a mitologia greco-romana, Atena, ou Minerva, a deusa da sabedoria, também teve seu momento de bobice, como acontece com qualquer mortal, quando concordou em participar de um concurso de beleza que já contava com as inscrições de Hera (Juno) e Afrodite (Vênus), suas companheiras de divindade, cuja votação deveria acontecer durante o casamento de Tétis, divindade marítima que por ser dona de beleza excepcional era disputada por Júpiter (Zeus) e Netuno (Posseidon), razão pela qual os deuses decidiram casá-la com um mortal, no caso Peleu, rei dos mirmidões, na Tessália. Todos os deuses do Olimpo foram convidados para a cerimônia, exceção feita a Éris, ou Discórdia (ilustração), que ficou furiosa por ter sido preterida daquela forma, e por isso fez surgir entre os convivas um lindo pomo de ouro com a inscrição “À mais bela”, imediatamente disputado pelas três candidatas ao título.
A discussão entre elas ganhou a intensidade que apenas as mulheres conseguem transmitir às suas desavenças, tanto que Zeus, ou Júpiter, deus supremo do Olimpo, preferiu não se intrometer naquela questão delicada e entregou ao pastor Páris a responsabilidade pela decisão a ser tomada. Sabedoras disso, as três candidatas foram separadamente ao monte Ida, onde o moço vigiava suas ovelhas, e lá cada uma delas mexeu os seus pauzinhos tentando influenciar o juiz a decidir em seu favor, o que comprova a antiguidade dessa prática de cada um querer puxar a brasa para a sua sardinha: A deusa Juno prometeu-lhe riqueza e poder; Minerva, por sua vez, garantiu que lhe daria glória e fama na guerra; enquanto Vênus, melhor conhecedora das aspirações que dominam a vontade masculina, disse apenas que o rapaz teria como esposa a mais bela das mulheres, caso concordasse em ajudá-la. Paris, que não era bobo, optou por esta última recompensa, e com isso ganhou o rancor e a inimizade das outras duas deusas.
Isso feito, o pastor viajou para a Grécia sob a proteção de Vênus, onde foi recebido por Menelau, rei de Esparta, cuja esposa Helena era “a mais bela das mulheres” prometida pela deusa ao juiz que lhe garantira o pomo de ouro. Influenciada pela divindade alcoviteira, Helena decidiu fugir com Páris para Tróia, mas a bem da verdade se deve dizer que o seu novo amado, de acordo com a lenda, era um homem forte e bonito, predicados que certamente a convenceram a fazer o que fez. O fato é que o marido abandonado não gostou do papel de bobo a que o tinham relegado, encheu-se de brios e foi atrás da mulher fujona, e foi assim que se iniciou em 1200 a.C., aproximadamente, a famosa guerra que durou dez anos, cantada na Ilíada e na Odisséia, de Homero, na Eneida, de Virgílio, os maiores poetas da antiguidade, bem como pelos poetas cíclicos e nos romances medievais.
Do drama mitológico sobrou-nos a expressão “pomo da discórdia”, atribuída a qualquer coisa ou pessoa que dá motivo a que surjam desentendimentos, discórdias ou conflitos entre os seres humanos.





