R a U - RUA DA AMARGURA

Em Lucas (23:26 a 34), na Bíblia, está escrito: “Enquanto o conduziam, agarraram um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz, para que a carregasse atrás de Jesus. Seguia-o uma grande multidão de povo e de mulheres que batiam no peito e o lamentavam. Voltando-se para eles, Jesus disse: ‘Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. Porque virão dias em que se dirá: Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram! Então dirão aos montes: Cai sobre nós! e aos outeiros: Cobri-nos! Porque se eles fazem isto ao lenho verde, o que acontecerá ao seco?'. Eram conduzidos, ao mesmo tempo, dois malfeitores para serem mortos com Jesus. Chegados que foram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, como também os ladrões, um à direita e outro à esquerda. E Jesus dizia: ‘Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem'. Eles dividiram as suas vestes e as sortearam”.

 

Esta passagem bíblica faz parte da Via-Sacra, imagem litúrgica do caminho percorrido por Jesus Cristo carregando a cruz, do pretório de Pôncio Pilatos ao Gólgota, onde seria então crucificado, e compõem a série de quatorze quadros que representam as cenas principais da Paixão de Cristo, donde “fazer a via-sacra”, para os católicos, significa percorrer esses quadros, parando diante de cada um deles, para rezar. Em 1593, o frei português Pantaleão de Aveiro peregrinou à Terra Santa, e quando retornou à sua cidade registrou em um livro - Itinerário da Terra Santa e Suas Particularidades - as lembranças da viagem que fizera. E é neste livro que pode ser encontrada a seguinte anotação: “tomamos outra (rua) à mão direita, costa arriba, caminho do Calvário, a qual se chama Rua da Amargura”.

 

Popularmente, a expressão “rua da amargura” tem como significado a sucessão de desgostos ou sofrimentos vividos por uma pessoa em determinado momento de sua existência, mas hoje, e mais do que nunca, esse caminho vem sendo percorrido por um número crescente de indivíduos que se tornam impotentes diante da incrível mudança de costumes, preceitos e princípios de vida por que passa a humanidade.  Sobre esse tema, e com o mesmo nome, o compositor e poeta Vinícius de Moraes escreveu a seguinte composição:

 

A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge

E tem casas baixas que ficam me espiando de noite

Quando a minha angústia passa olhando o alto

A minha rua tem avenidas escuras e feias

De onde saem papéis velhos correndo com medo do vento

E gemidos de pessoas que estão eternamente à morte

A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladram

Tem árvores grandes que tremem na noite silente

Fugindo as grandes sombras dos pés aterrados

A minha rua é soturna

Na capela da igreja há sempre uma voz que murmura louvemos

Sozinha e prostrada diante da imagem

Sem medo das costas que a vaga penumbra apunhala

A minha rua tem um lampião apagado

Na frente da casa onde a filha matou o pai

Porque não queria ser dele

No escuro da casa só brilha uma chapa gritando quarenta

 

A minha rua é a expiação de grandes pecados

De homens ferozes perdendo meninas pequenas

De meninas pequenas levando ventres inchados

De ventres inchados que vão perder meninas pequenas

É a rua da gata louca que mia buscando os filhinhos nas portas das casas

 

É a impossibilidade de fuga diante da vida

É o pecado e a desolação do pecado

É a aceitação da tragédia e a indiferença ao degredo

Como negação do aniquilamento

 

É uma rua como tantas outras

Com o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite

É a rua por onde eu passo a minha angústia

Ouvindo os ruídos subterrâneos como ecos de prazeres inacabados.

É a longa rua que me leva ao horror do meu quarto

Pelo desejo de fugir à sua murmuração tenebrosa

Que me leva à solidão gelada do meu quarto...

 

Rua da amargura…


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