R a U - SEM DIZER ÁGUA VAI

Esta é uma locução cuja origem tem ligação com os usos e costumes de tempos antigos. Naquela época não havia esgotos nas cidades, e por esse motivo os moradores costumavam jogar fora, pelas janelas de suas casas, notadamente dos sobrados, os despejos líquidos de que queriam se ver livres, mas antes de fazê-lo avisavam aos passantes com um “lá vai água” falado em voz bem alta, grito de alerta compreensivelmente necessário para evitar que fatos desagradáveis e constrangedores pudessem acontecer com quem tivesse a infelicidade de estar passando pelo lugar errado, na hora errada.

 

Mas como nem todos procediam dessa maneira, volta e meia ouvia-se o esbravejar de alguém muito indignado com o fato de ter sido atingido pelo “lançamento doméstico” feito sem aviso prévio, o que também é perfeitamente admissível. Mas com o avançar dos anos e a conseqüente modernização dos aglomerados humanos, o sistema de coleta de esgotos foi sendo implantado paulatinamente nas cidades, eliminando nas pessoas o mau hábito de usar a janela como escoadouro natural da água usada e outras coisas sem serventia. Mas não eliminou a frase, que mantém seu significado praticamente inalterado.

 

Sobre essa implantação a Cedae - Companhia Estadual de Águas e Esgotos, do Rio de Janeiro, explica em divulgação que faz sobre suas atividades, que a cidade carioca foi fundada por Estácio de Sá junto ao Morro Cara de Cão (Pão de Açúcar), na Praia Vermelha, em março de 1565. Dois anos depois foi transferida por Mem de Sá para o Morro do Desterro (Castelo), onde se desenvolveu. Aos poucos a população foi descendo o morro do Castelo, espalhando-se pelas planícies circunvizinhas. Nessas planícies existiam numerosas lagoas e áreas pantanosas provenientes do movimento das marés, já que as preamares alagavam toda a área entre o atual Passeio Público e a Praça Mauá. Aos poucos estas áreas foram sendo aterradas, iniciando-se pelas mais próximas do Morro do Castelo (lagoas de Santo Antônio e a do Boqueirão) que deu origem à atual Rua Evaristo Veiga.

 

Naquele tempo, os moradores tinham o mau costume de lançar na rua e na “vala” todos os despejos e detritos domésticos, transformando-a em uma imensa cloaca exalando insuportável mau cheiro e produzindo ondas de mosquitos – entenda-se como “vala” o sangradouro natural de um curtume instalado à beira da Lagoa de Santo Antônio. Outras valas existiam ou foram abertas nas zonas que se povoavam, cabendo a Câmara, até 1828, cuidar da limpeza das mesmas, transferindo depois para a Inspetoria de Obras Públicas, criada em 1840. Os esgotos das casas eram acondicionados em barricas de madeiras (os cubos), nos quintais, e à noite transportados por escravos para os lançamentos mais próximos, como as Praias do Peixe (Rua D. Manuel) e das Farinhas e o Campo da Aclamação (Campo de Santana). Esses escravos (ilustração) e os seus barris foram apelidados pelo povo de “Tigres” dos quais todos fugiam nas ruas mal iluminadas.

 

Em vista das péssimas condições sanitárias da população, surgiu a idéia de construir uma rede de esgotos. Para tal, em 25 de abril de 1857, com base na Lei nº 719, de 28.09.1853, foi assinado pelo Imperador D. Pedro II o contrato básico aprovado pelo Decreto nº 1929 de 26.04.1857 de esgotamento sanitário da Cidade do Rio de Janeiro, com João Frederico Russel e Joaquim Francisco de Lima Junior, com validade de 90 anos, mediante o qual era concedido àqueles senhores o privilégio de construir e administrar a rede pública de esgotos sanitários, bem como executar as instalações de esgotos dos prédios, dentro dos limites da área central, de cerca de 4,24 km².

 

O contrato de 1857 admitiu a constituição de ema empresa fora do país, com capitais estrangeiros (ingleses), para realizar as obras de implantação do sistema de esgotamento sanitário. Coube a Eduardo Gotto, membro do Instituto de Engenheiros Civis de Londres elaborar o projeto do sistema contratado, bem como desenvolver intensa atividade para organizar e constituir uma empresa de capital inglês, a The Rio de Janeiro City Improvements Company Limited, conhecida depois como City, para a qual o contrato de Russel e Lima Junior foi transferido, em maio de 1863.

 

A cidade do Rio de Janeiro foi a terceira cidade do mundo a ser dotada de rede de esgotos sanitários, precedida por Londres (1815) e Hamburgo (1842). Somente Londres, como Capital se antecipou ao Rio, na construção de suas redes de esgotos.

 

O folclorista Luís da Câmara Cascudo, em Locuções Tradicionais do Brasil, menciona uma passagem da comédia do escritor espanhol Miguel Cervantes Cervantes (1547-1616)  intitulada “La Casa de Los Celos”, em que uma pastora canta: “Derramaste el água, la niña / y no dijistes - água va! / La justicia os prenderá”, o que demonstra que tanto aqui, como lá, as coisas eram feitas da mesma maneira.


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