R a U - SENHOR DO SEU NARIZ
Assim é chamado aquele que demonstra ser livre e soberano, e por isso mesmo, dono da sua vontade. A origem dessa expressão está ligada ao costume que tinham reis africanos e asiáticos da antiguidade, de cortar o nariz dos seus prisioneiros para que estes ficassem reduzidos ao cativeiro total. O folclorista Luis da Câmara Cascudo - citando Deodoro da Sicília, historiador grego do qual existem poucos registros - revela em “Locuções Tradicionais do Brasil” que o etíope Actisanés (?), faraó do Egito, fundou na fronteira da Síria uma colônia constituída unicamente de bandoleiros desnarigados. Dessa forma, quem por ali tivesse o nariz no seu devido lugar, era considerado autônomo e independente. Esse nefando costume da extirpação persistiu por centenas de anos, tanto que bem mais adiante, já no século 17, os registros históricos revelam que também se cortava o nariz dos assaltantes como forma de punição, transformando esse estigma infamante em uma espécie de marca da desonestidade.
Recentemente, em entrevista concedida a uma revista da área médica, o doutor João Ferreira de Melo Júnior, otorrinolaringologista especializado em alergias, explicou que o nariz tem função estética, função olfativa, função respiratória e de caixa de ressonância. “Não se sabe por que a evolução preservou a função estética - disse ele. - O fato é que para nós, ter nariz é bonito. Sem ele, o rosto adquire um aspecto assustador, tanto que antigamente algumas penalidades previam a amputação do nariz”. Prosseguindo, o especialista esclareceu: “No processo evolutivo, com certeza, a função olfativa está relacionada com a procriação, com a procura do parceiro mais forte e adaptado para garantir a preservação da espécie. O nariz funciona também como caixa de ressonância ligada à vocalização, isto é, é nele que a voz ressoa e se torna mais agradável. Sem dúvida alguma, porém, a mais importante de suas funções é a respiratória. O nariz funciona como filtro do ar que inspiramos. Além de reter as partículas de poeira, ele também regula a temperatura e umidade do ar que entra nos pulmões”.
Estudos sobre o nariz revelam que ele constitui uma das partes mais importantes da face para a classificação das raças, pois de uma a outra, é grande variedade quanto à sua conformação e dimensões. Utiliza-se para tal fim o índice nasal, ou relação centesimal entre a largura e altura, que apresenta valores superiores a 100 entre alguns tasmanianos e australianos, e baixa a menos de 60 nos europeus. Além do perfil, apresenta igual importância a orientação e forma das asas, das narinas, etc., embora a forma varie com a idade e o sexo. Mas além das variações de caráter étnico, esse nosso apêndice facial apresenta outras características individuais, tornando-se importante elemento na identificação.
Essas duas características especialíssimas - estética e identificadora - dão ao nariz importância muito maior que a possivelmente presumida, tanto que nos tempos antigos, como já visto, ele era um dos alvos preferidos na ação mutiladora promovida pelos tiranos sem mais o que fazer. Por volta de 900 a.C., por exemplo, o Imperador assírio Assurbanipal II vangloriava-se das penas cruéis impostas por seu império, declarando ter provocado grande morticínio. Segundo consta, ele aprisionava os guerreiros inimigos e os empalava diante de suas cidades saqueadas, empilhando cadáveres como lenha do lado de fora dos portões. Assurnasirpal II era possuidor de crueldade incomum, e os historiadores atribuem a ele as seguintes palavras: "Muitos dos cativos mandei queimar numa fogueira, e outros tantos preferi levar vivos. De alguns cortei fora suas mãos, de outros, o nariz, as orelhas e os dedos. Arranquei os olhos de muitos soldados. Queimei até a morte os homens e mulheres jovens".
Por sua vez, os chineses têm o privilégio de possuir uma vasta literatura histórica, pois mesmo as cortes mais antigas possuíam escribas responsáveis pela crônica das realizações do soberano e dos acontecimentos da época. Desde o século 18 a.C., até por volta do ano de 1100 a.C., a China foi dominada pela dinastia San, período durante o qual os chineses desenvolveram um tipo de escrita totalmente diferente daquela usada no Oriente Médio. O arquivo escrito dessa dinastia foi deixado na forma de inscrições em vasos de bronze e nos ossos que usavam para adivinhações. Nessa época, a estrutura política era centralizada, concebida para governar um povo muito espalhado, e o rei, declarando-se "o Único" e "o Filho do Céu", a suprema figura política, militar e religiosa do estado chinês, administrava pessoalmente a justiça. Ela podia envolver penalidades severas como cortar o nariz ou uma orelha, furar os olhos ou castrar o culpado.
Conforme se observa, a extirpação do nariz - detalhe anatômico que embeleza e ajuda a identificar as pessoas - mutilava ao mesmo tempo a própria personalidade do castigado, uma vez que ao diferenciá-lo fisicamente dos seus semelhantes, não só o mostrava visualmente como cativo ou criminoso, mas principalmente lhe destruía a vaidade, a altivez e o orgulho, transformando-o em um homem submisso e derrotado. Talvez, quem sabe, no fundo, no fundo, era isso o que realmente se buscava.
Em conseqüência, a tradição preservou para a posteridade o ensinamento de que o nariz no lugar demonstra, entre outras coisas, o controle do homem sobre o seu próprio destino. Porém, e infelizmente, existem sérias controvérsias a esse respeito...





