R a U - SÓ PARA INGLÊS VER
O tráfico de escravos começou no Brasil por volta do ano de 1526, e se desenvolveu graças à necessidade de braços para atender a lavoura de cana-de-açúcar, que crescia muito naquela época. Entretanto, a mão-de-obra indígena era inferior em produtividade à dos africanos, e por causa disso a economia açucareira do Nordeste passou a receber um número cada vez maior de negros escravizados, o que acabou motivando o corsário inglês John Hawkins (1532-1595) a criar a primeira companhia especializada em abastecer o mercado da escravatura no país, da qual participou, inclusive, a rainha britânica Elizabeth I.
Daí em diante, interesses poderosos sempre estiveram ligados a esse tipo de tráfico, tanto que no século 17 uma companhia portuguesa do ramo comprometeu-se a entregar à Espanha cerca de “10.000 toneladas de escravos”, mas como não cumpriu esse trato, o probleminha entre os dois países virou um problemão, só sendo resolvido em 1701 com a assinatura de um acordo de aliança entre eles. A partir dessa época o negócio de aprisionar homens e vendê-los a interessados, virou uma festa e tanto. A tal ponto que a estimativa é a de que até o ano de 1850 tenham sido transportados da África cerca de doze milhões de escravos, dos quais cerca de três milhões vieram para o Brasil.
Mas com as condições econômicas que paulatinamente foram sendo implantadas no continente europeu, conseqüência da transformação industrial e social e do emprego de máquinas em grande escala que a Revolução Industrial introduziu em diversos países civilizados, o regime de escravidão foi declinando pouco a pouco, e assim, em 1807, a Inglaterra aprovou a abolição do trabalho escravo, exemplo logo seguido por vários países europeus. A partir daí os ingleses passaram a se preocupar com a extinção total do tráfico, e em 1810 firmaram com a corte portuguesa, então no Brasil, um tratado de aliança que incluía a abolição parcial da escravatura. Em 1815 os portugueses comprometeram-se a restringir o tráfico às suas necessidades de mão-de-obra, e em 1836, diante da pressão da Inglaterra, finalmente decretaram a extinção do mesmo.
Não satisfeito, o primeiro-ministro inglês, William Ewart Gladstone, ameaçou o Brasil com uma guerra, e diante disso a Regência no Brasil promulgou lei declarando livres os escravos que aqui chegassem, além de determinar punição severa aos transgressores. Mas essa imposição legal jamais foi obedecida, razão pela qual a população passou a comentar nas ruas que o sacerdote e ministro Diogo Antonio Feijó (1784-1843), então regente do Império, tornara obrigatório o cumprimento de normas que eram “só para inglês ver”. Tal situação perdurou até 1854, quando finalmente foi promulgada a Lei da Supressão do Tráfico, mas a frase-feita continuou sendo usada com o sentido de esclarecer que a intenção de alguma coisa que está sendo feita é somente a de iludir os outros.
A abolição da escravatura no Brasil trouxe um sério problema para os grandes fazendeiros de café: quem trabalharia em suas lavouras? Essa carência de mão-de-obra começou a preocupar os cafeicultores, principalmente os do oeste paulista, pois os do vale do Paraíba já estavam em decadência. Surgiu então a idéia de contratar imigrantes europeus para trabalhar nas fazendas, pois era grande o número de fugitivos das revoluções que eclodiam em países do velho continente. E, então, a partir de 1871, isto é, 21 anos após a lei Eusébio de Queirós, eles começaram a chegar ao Brasil, quase 100 mil por ano, vindos principalmente da Itália em busca do sonho de uma vida melhor na América.





