R a U - TEM PAI QUE É CEGO
Esta frase é genuinamente nacional, e foi criada há algumas dezenas de anos pelo jornalista, ator, humorista e escritor José Eugênio Soares, mais conhecido como Jô Soares, em programa humorístico de uma das emissoras de televisão do Rio de Janeiro. Em certo quadro dessa atração ele representava um pai excessivamente indulgente com os desvios de comportamento do filho, apesar deste demonstrar com palavras, gestos e modos de vestir, que era justamente o oposto daquilo que o seu orgulhoso, mas iludido progenitor, dele dizia aos amigos que encontrava. A frase transformou-se em divertido bordão de programas de grande audiência como Planeta dos Homens, Veja o Gordo e Viva o Gordo, ganhou as ruas de todo o país e passou a ser usada pelos que desejavam fazer comentários maliciosos sobre os pais que não conseguiam enxergar nos filhos e filhas os defeitos facilmente perceptíveis no procedimento de cada um deles. Ou seja, o pai era dado como cego, pois não via o que se passava bem diante de seu nariz.
O tempo passou, e hoje, mais que nunca, a frase se tornou aplicável a uma multidão de pais e mães que simplesmente não conseguem perceber os descaminhos trilhados por um número cada vez maior de adolescentes. E eles, os descaminhos, não são mais os de antigamente porque se tornaram bem mais perigosos: subjugantes e exigentes, envolvem vícios e procedimentos dos quais muitos não conseguem escapar de forma definitiva, e por isso acabam destruindo a si mesmos. Os entendidos no assunto, ou que pelo menos se classificam dessa forma, têm discutido esse problema em busca de um diagnóstico preciso para o mal que se alastra com velocidade crescente entre os jovens, porque é cada vez maior a procura ou aceitação dos mesmos por esse tipo de experiência que geralmente se transforma em hábito, em vício quase sempre incontrolável.
Muitos atribuem essa situação à destruição do espírito de família. Hoje em dia, dizem eles, as pessoas que casam e descasam com a mesma facilidade com que se troca uma peça de roupa, esquecem que os filhos resultantes da aventura amorosa irão sofrer, no amanhã, as conseqüências da ausência paterna ou materna em sua fase de aprendizado. E afirmam que não basta uma casa onde duas ou mais pessoas se reúnam para dormir, apenas, porque dela, nesse caso, está ausente a força do grupo familiar que se mantém unido e coeso tanto nos bons como nos maus tempos; falta a ela não somente o calor do convívio diário entre marido, mulher e seus descendentes, mas principalmente o aconchego nascido do e fortalecido pelo sentimento de que “aqui é o meu cantinho, o meu refúgio, a minha fortaleza”. Isso é uma família! Imaginem o que se passa na cabeça de um menino que já entende as coisas, quando vê um colega seu de mãos dadas com o pai, enquanto ele, às vezes, nem ao menos sabe quem é o seu?
Outras orientadoras educacionais concordam em que a criança, a partir dos dois anos de idade, já está pronta para conhecer as regras a seguir e os limites a obedecer, mas estranhamente ensinam que o “não”, quando taxativo, porque dito com finalidade educativa, inibe a expressão e a criatividade, ao mesmo tempo em que condenam o estabelecimento de limites comportamentais porque, no seu entendimento, isso faz com que o menino, ou menina, se sinta inseguro e não aprenda a lidar nem com as frustrações, nem com as dificuldades da vida. Perguntando se uma criança de 2 anos tem necessidade de se queimar para aprender que o fogo queima, elas concluem que essa é a falta do bom senso dos pais, no que são contestadas por outras orientadoras advogando a idéia de que na “estrada da vida” as pessoas encontram a todo instante a bifurcação do “pode” e do “não pode”. A escolha da opção errada poderá fazer com que se percam por longo tempo, quando não definitivamente, e indagam se uma menina de onze anos precisa engravidar para saber o que é a maternidade?
Dizem estas últimas que a vida comunitária se mantém organizada graças às regras e limites estabelecidos com a finalidade de garantir a paz e tranqüilidade entre os seus membros. O dia-a-dia das pessoas é recheado com pequenas regras comportamentais, e demarcado por limites invisíveis que determinam, assim como nas fronteiras geográficas, o que é nosso e o que é do vizinho. Por isso as filas nos caixas de supermercado, nas filas de ônibus, para comprar ingresso, almoçar e jantar no restaurante, garantir vaga na escola, conseguir consulta médica ou ser atendido pelo caixeiro da loja movimentada, falar com o prefeito, deputado, senador, ou mesmo com o chefe de alguma coisa na repartição pública. E acima de tudo, o direito de garantir a propriedade do que lhe pertence, o que está ficando cada vez mais difícil na atualidade em virtude dos movimentos de toda ordem que explodem como pipoca no país.
Elas alegam que as crianças não nascem com problemas de comportamento, mas que vão adquirido-os durante o período educativo seja através do exemplo paterno e materno, seja através da influência de terceiros, robustecida pela omissão, conivência, descaso ou despreparo de quem teria a responsabilidade de lhes mostrar o caminho certo. É um engano, garantem as orientadoras, atribuir o aumento crescente de jovens desajustados sociais a uma pretensa “opressão”, ou “repressão”, sofrida por seus pais durante a infância, porque o não porventura recebido por estes, ao invés de castigá-los, serviu para educá-los, para ensiná-los a separar o certo do errado. Tanto que eles não cometem, nem cometeram, os mesmos atos rebeldes e nada sociais praticados por seus filhos “modernos”, “avançados” e “liberados”.
Como não se sabe quem avançou, ou quem regrediu, a frase do Jô Soares – tem pai que é cego - mantém sua aplicabilidade nos tempos atuais. Resta saber em que sentido o pai continua sendo um cego.





