R a U - TIRAR O CAVALO DA CHUVA

Há algumas dezenas de anos, a inexistência de estradas de rodagem tornava o automóvel uma coisa rara no interior do Brasil, e por isso o deslocamento de pessoas para lugares relativamente distantes era feito no lombo de cavalos, de éguas, de burros e mulas. Dessa forma, por serem eles o meio de transporte comum nas regiões afastadas dos centros urbanos tidos como mais adiantados, os parentes, amigos e vizinhos, os interessados em realizar negócios e demais pessoas, os usavam no ir e vir das visitas que faziam, e quase todos tomavam um cuidado especial com suas montarias e respectivos arreamentos, motivo de prazer, orgulho e vaidade para determinados cavaleiros.

 

O costume era chegar, apear e amarrar a montaria à frente das casas, mas quando o que acabava de chegar deixava seu animal preso em lugar protegido, como debaixo de uma árvore, por exemplo, ou em varandas e sob o telhado de alguma coberta, isso era sinal de que ele pretendia demorar-se mais tempo do que o necessário para uma conversa pouco demorada. Mas quando isso não acontecia, seja porque a prosa estava boa e o dono da casa não desejava encerrá-la, seja porque o visitante alertava de que já estava na hora de ir embora, o visitado aconselhava o compadre ou amigo a procurar um abrigo para o seu animal, dizendo-lhe que era para “tirar o cavalo da chuva”. Assim como quem estivesse dizendo: “guarde o seu cavalo, que é para nós dois podermos continuar conversando sem nos preocuparmos com ele”.

 

Sobre essa frase-feita de uso tão corriqueiro, o professor e advogado Reinaldo Pimenta, em seu livro “A Casa da Mãe Joana”, diz o seguinte:

 

 "No interior, o meio de transporte mais utilizado é o cavalo. Além de não enguiçar nem parar por falta de combustível, o cavalo tem a vantagem de deixar clara a intenção do visitante na chegada. Se ele amarra o bicho à frente da casa, sinal de permanência breve; se ele leva para um lugar protegido da chuva e do sol, pode botar água no feijão, o moço vai demorar. Na primeira hipótese, acontecia às vezes o anfitrião pegar gosto na prosa. Quando a visita ameaçava se levantar para partir, o dono da casa dizia: “Pode tirar o cavalo da chuva”, ou seja, pode levar sua montaria para um local abrigado, que você ainda vai demorar. Depois o sentido da expressão se ampliou para desistir de um propósito qualquer, e para muita gente o cavalo ganhou um diminutivo irónico e virou cavalinho".

 

Na opinião de alguns filólogos a expressão foi cunhada no sul do país sem que ninguém possa precisar com exatidão a época em que isso aconteceu, sendo, provavelmente, resultado do hábito que os cavaleiros gaúchos mantinham de recolher seus animais em galpões quando tinham alguma coisa demorada a fazer, enquanto a chuva que caía ou ameaçava desabar dos céus dava sinais de que poderia ser forte e mais prolongada. Com o passar do tempo a expressão foi perdendo o seu sentido original e voltando-se para a idéia de que alguém, em algum lugar, deve desistir de alguma coisa, deixando de lado a esperança de encontrar em tempo hábil aquilo que procura. Por isso, hoje em dia, o aviso de que é para “tirar o cavalo da chuva” serve para indicar que a solução de determinado problema vai demorar a ser encontrada, embora alguns autores prefiram atribuir à frase-feita o significado de "desistir de um itento", "abandonar pretensões", "furtar-se a responsabilidades", ou "perder as ilusões".

 

Além dessa expressão popular, o cavalo é um animal que está presente em inúmeras outras frases usadas habitualmente pelo povo. Como nas seguintes:

 

- Antigamente o dono do cavalo andava na sela, hoje puxa pelo cabresto: queda de prestígio.

- Além da queda, coice: um mal em cima do outro.

- Aquilo é um cavalo! Se cair de quatro, nunca mais se levanta: diz-se de quem é por demais estúpido.

- Bife a cavalo: bife com dois ovos fritos em cima.

- Cair do cavalo: queda na posição política ou social.

- Cara de cavalo: cara comprida.

- Cavalão: homem agigantado, idiota.

- Cavalo(a): ferida venérea na glande masculina.

- Cavalo batizado: homem boçal, ignorante, bruto

- Cavalo de batalha: caso, complicação sem motivo.

- Cavalo de pau: manobra arriscada em automóvel e brinquedo de menino.

- Cavalo de santo: médium de Umbanda.

- Cavalo de Tróia: ardil ou embuste (lembrança da guerra de Tróia).

- Chifre em testa de cavalo: coisa difícil.

- Crescendo que só rabo de cavalo: crescendo para baixo, perdendo o prestígio.

- Passar de cavalo a burro: ser rebaixado de posto.

- Rabo de cavalo: modelo de penteado feminino.

- Trabalha como cavalo de matuto: trabalha demais.


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