R a U - TIRAR O PAI DA FORCA
A história de Santo Antônio de Pádua é rica em relatos de milagres praticados por ele, a tal ponto que o livro Tratado dos Milagres registra um desses prodígios para cada dia do ano. No primeiro deles, quando o santo ainda era menino e integrava o coro da igreja em Coimbra, Portugal, gravou com o dedo o sinal-da-cruz em uma das portas do templo, para afugentar o demônio que se disfarçara como mulher e fora até ali para tentá-lo.
Em um outro acontecimento extraordinário, conta a lenda que Santo Antônio, durante um sermão que fazia, recebeu espiritualmente a informação de que seu pai fora acusado do assassinato de um jovem e por isso condenado a morrer na forca dentro de poucos dias. Nesse momento o religioso colocou a mão na fronte, como se estivesse simplesmente pensando, e pelo poder da bilocação, que é a presença milagrosa de uma pessoa em dois lugares diferentes ao mesmo tempo, transportou-se a Lisboa, onde ressuscitou o morto, ouviu dele o relato do que realmente havia acontecido, e com essa informação conseguiu absolver seu pai diante do mesmo tribunal que o havia considerado culpado.
Segundo a tradição, o que de mais se sabe sobre essa passagem é que para as pessoas que ouviam o sermão de santo Antônio, ficou a impressão de que ele havia feito uma pausa momentânea, como se estivesse ordenando pensamentos e idéias para poder prosseguir com a sua fala. Essa é a origem da expressão “tirar o pai da forca”, que por sinal tem relação não com um, mas sim com dois milagres: a presença de Santo Antônio em Lisboa e Pádua, ao mesmo tempo, e a ressurreição de um morto que voltou a descansar em paz, após dar o seu testemunho para restabelecer a verdade em um fato grave.
Santo Antônio era natural de Lisboa, Portugal, onde nasceu em 15 de agosto de 1195 e foi batizado com o nome de Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo. Seu pai - prefeito da cidade - e sua mãe eram membros da nobreza lusitana, e por isso ele cresceu cercado de cuidados e recebendo os melhores ensinamentos possíveis na época. Mas o jovem foi percebendo aos poucos que seu modo de vida não lhe satisfazia o espírito, e por isso atendeu ao chamado de Deus e se prontificou a servi-lo com todas as forças que possuía. Sua morte ocorreu em 13 de junho de 1231, aos 36 anos de idade, e sua canonização pouco menos de um ano depois, em 30 de maio de 1232.
Ao contrário da crença popular, a causa da morte por enforcamento não é o estrangulamento, mas a lesão provocada na parte superior da medula espinhal, que se dá com a fratura ou o deslocamento das vértebras cervicais. A morte é quase instantânea e acaba sendo mais rápida do que em outras formas de execução, como a guilhotina, a câmara de gás e a cadeira elétrica. Diversas lendas surgiram em decorrência desse tipo de pena capital ainda usado em muitos países, e uma delas está ligada à igreja de Nossa Senhora das Dores, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, que começou a ser construída em 1833 e levou 97 anos para ser concluída. O texto “Torres Malditas”, de Afonso Morais, publicado em 1931, revela que em certa noite o precioso colar que ornava a imagem de Nossa Senhora foi roubado, e a culpa por esse crime atribuída a um escravo que, cedido pelo seu senhor, trabalhava como pedreiro na construção da igreja. Condenado ao enforcamento, suas últimas palavras, segundo a lenda, foram: “Vou morrer porque sou escravo, mas sou inocente, e a prova disso é que as torres da Igreja Nossa Senhora das Dores hão de cair três vezes e nunca ficarão completamente prontas". Segundo dizem, cinco meses depois as duas torres, já quase prontas, realmente desabaram, e nesse momento a maldição do escravo foi lembrada por todos.
A conseqüência desse episódio, ainda segundo a lenda, foi a de que D. Pedro II, ciente de que o fato havia impressionado fortemente a população porto-alegrense, fortaleceu ainda mais sua idéia de que a pena de morte deveria ser extinta no Brasil, para que pessoas inocentes não fossem mais executadas por algo que não haviam cometido.





