R a U - TOQUE DE MIDAS
A mitologia grega é rica em passagens curiosas e interessantes, sendo uma delas a que fala de Midas, personagem real que viveu na época de Sargão, rei da Assíria (722/705 a.C.). Ele era rei da Frigia, região formada por vastas extensões de terra ao longo do mar Negro e nas costas do mar Egeu, colonizada cerca de mil e trezentos anos antes de Cristo por uma raça de origem incerta cujo nome desapareceu da História no ano 300 da era cristã, sob o poder e força de Diocleciano, então imperador romano no Oriente. Das numerosas lendas que são contadas a seu respeito, duas são especialmente populares: a do toque de ouro e a das orelhas de burro.
Segundo a tradição, Dionísio (Baco, para os romanos), deus do vinho e da vegetação, dirigiu-se certa vez ao reino da Frígia acompanhado de sua comitiva habitual, da qual também fazia parte Sileno, um sátiro metade homem, metade bode, ou cavalo, divindade das florestas e das fontes, filho de Hermes (Mercúrio), ou de Pã, com uma ninfa, e educador de Dionísio. Como os visitantes estavam acomodados junto a uma fonte, Midas derramava vinho nas suas águas, para agradá-los, mas depois que estes se foram, alguns camponeses encontraram Sileno embriagado e então o levaram à presença do rei, que manteve o sátiro em seu poder durante dez dias passados em prazeres e banquetes, e em seguida o entregou ao deus.
Satisfeito em rever seu preceptor, Dionísio concedeu a Midas o direito de lhe pedir qualquer coisa que desejasse, e o rei, ambicioso, manifestou sua vontade de que dali em diante, tudo aquilo em que tocasse, virasse ouro. Seu desejo foi imediatamente atendido e as primeiras transformações deslumbraram o soberano frígio; um pedaço de madeira, uma pedra, sua espada, a cadeira onde se sentava, tudo aquilo em que ele encostava a mão na mesma hora se transformava em ouro. E sua satisfação aumentava cada vez mais, até o momento em que percebeu que a mesma coisa acontecia com a comida em que pegava, mas o ouro não podia ser utilizado como alimento.
Então, para não morrer de fome, Midas voltou à presença de Dionísio e suplicou-lhe que desfizesse o encanto, e o deus, penalizado, disse-lhe que mergulhasse nas águas do Pactolo, um pequeno afluente do rio Hermus, atual Gediz, na Lídia, Ásia Menor. O rei obedeceu, ficou curado, mas desde então, segundo a lenda, rola nesse curso d’água uma areia aurífera que deu ao lugar o nome de Fonte de Midas.
De outra feita, segundo a lenda, o rei Midas foi juiz de uma disputa musical entre o deus Apolo, que tocava a lira, e o sátiro Mársias, que soprava o aulo, uma espécie de flauta que a deusa Atena inventara mas que dela se desfizera porque o som do instrumento lhe deformava a expressão. O rei declarou Mársias vencedor, e Apolo, ficando inconformado com a decisão que não levava em conta a sua natureza divina, fez com que na cabeça do rei crescessem duas enormes orelhas de burro, em lugar das naturais. Envergonhado com o que lhe acontecera, o rei passou a esconder as orelhas sob um chapéu, que não tirava em momento algum, e somente um dos servos, o barbeiro, conhecia a razão daquela nova mania do soberano, mas não podia revelar esse fato a ninguém. Certo dia, porém, inquieto diante da possibilidade de não se conter e deixar escapar tamanho segredo, o pobre homem cavou um buraco no chão, na margem de um rio, e contou a Gaia, a Terra, que o rei Midas tinha orelhas de burro. Depois de algum tempo, alguns caniços cresceram no local e, quando o vento passava por eles, murmuravam: "o rei Midas tem orelhas de burro"...
A história que nos veio da mitologia grega resultou na expressão aplicável às pessoas que contrariando o que acontece com o restante dos mortais, conseguem ganhar dinheiro com relativa facilidade, sendo sempre bem sucedidas em todos os empreendimentos que realizam. Para esses indivíduos o normal é ninguém reconhecer a capacidade e competência que possuem, porque todos eles, na voz do povo, possuem o “toque de Midas”.





