V a Z - VÁ SE QUEIXAR AO BISPO
No início do século 18 os portugueses haviam perdido os lucros referentes ao comércio de açúcar entre nações e estavam sendo substituídos pelos ingleses no transporte dos produtos coloniais e no tráfico de escravos, só lhes restando o vinho para manter o equilíbrio nas relações de troca com a Inglaterra. Isso provocou o empobrecimento da coroa portuguesa, acostumada a viver no luxo, no fausto e no esplendor, e a conseqüência imediata dessa situação foi o início de uma busca desesperada pelo ouro no Brasil.
Já naquela época alguns países colonizadores procuravam estimular o aumento da população nas terras conquistadas, como fator de fortalecimento do Estado. No Brasil colônia não foi diferente, porque a abertura de novas fronteiras, e daí a possível e ansiada descoberta de filões auríferos, poderia proporcionar a Portugal os recursos de que ele tanto precisava para manter devidamente equilibrada sua “conta-corrente” com os ingleses. E isso aconteceu, realmente. A descoberta do ouro brasileiro permitiu que por algum tempo não só as finanças portuguesas se normalizassem, mas mudou de eixo a economia colonial, proporcionando um surto de prosperidade sem precedentes nas zonas de mineração de Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Sabará e Tiradentes, em Minas Gerais.
Para os colonizadores, a continuidade desse processo necessitava que a população nele envolvida se tornasse cada vez maior, porque o povoamento de novas áreas fatalmente redundaria no incremento da atividade mineradora. Entretanto, o conceito de família naquela época incluía marido, mulher e o maior número possível de filhos, ou seja, as famílias deveriam ser numerosas porque sendo a falta de braços para o trabalho um fator condicionante, a fertilidade da mulher tornava-se um atributo fundamental na concretização da cerimônia. Diante disso, a Igreja fazia vista grossa quanto ao problema e aceitava que os noivos mantivessem relações sexuais antes do casamento, porque essa era a única maneira de o rapaz descobrir se a moça poderia lhe dar os filhos que desejava.
Mas segundo revelam os relatos sobre o assunto, em muitos casos o noivo mudava de idéia após o relacionamento amoroso, e daí resolvia não mais se casar, deixando a moça desolada e sem outro recurso a não ser o de procurar o bispo local e registrar junto a ele a sua queixa. A autoridade religiosa, em atenção à reclamação feita, mandava alguns homens atrás do fujão, que sendo encontrado era trazido de volta para cumprir a promessa feita à noiva enganada. Dessa curiosa passagem de nossa história restou a expressão “vá se queixar ao bispo”, usada quando os espertos e os mal-intencionados conseguem ludibriar de alguma maneira a boa fé de alguém, deixando-o sem saber a quem recorrer.
Uma outra versão para esta frase-feita é dada por Jairo Faria Mendes, para o Instituo Gutenberg. Diz ele que “O ombudsman surgiu oficialmente em 1809, na Suécia, com um status de ministro e a função de fiscalizar o poder público e ouvir as queixas que os cidadãos tinham contra os órgãos governamentais. Posteriormente, os ombudsmen foram adotados em outros países, principalmente os escandinavos. Foram criados ombudsmen contra as discriminações étnicas, o ombudsman do parlamento, o dos consumidores, etc. No entanto, muito antes da experiência sueca já havia ouvidores. Sabe-se que na Roma Antiga os Tribunos da Plebe ouviam as queixas dos cidadãos. No Brasil Colonial eram os bispos que tinham a função de "ouvidores da coroa", o que deu origem a expressão popular "vá se queixar ao bispo".





